Morre Tinto Brass, diretor do polêmico ‘Calígula’, aos 93 anos
HENRIQUE ARTUNI
(FOLHAPRESS) – O diretor italiano de cinema erótico Tinto Brass, conhecido pelo polêmico “Calígula”, morreu nesta quarta-feira (4) aos 93 anos. A morte foi divulgada por sua família à agência de notícias Ansa e a causa não foi revelada.
O cineasta ganhou projeção global ao misturar erotismo, humor e temas libertários em suas obras, tendo se consolidado como um expoente do cinema erótico europeu. As suas produções levantaram diversos debates culturais, incluindo casos de censura.
O exemplo mais famoso é o de seu filme “Calígula”, que se debruça sobre o Império Romano e retrata a ascensão e queda do jovem imperador romano Gaius Caesar, conhecido como Calígula. No processo, Brass vê a corrupção moral e mental do protagonista, vivido por Malcolm McDowell, frente ao poder.
Concebido como um épico sobre a ambição humana, o filme ficou marcado por intrigas que envolveram o italiano, o roteirista Gore Vidal e o produtor Bob Guccione, fundador da revista erótica Penthouse. É que, após o fim das gravações oficiais, o último tomou o controle da montagem e adicionou cenas de sexo explícito gravadas em segredo, contrariando os desejos de Brass e Vidal.
Quando o filme enfim foi lançado, em 1984, eles exigiram a retirada de seus nomes e viram a obra ser censurada em vários países, com cópias apreendidas no Reino Unido, Estados Unidos, Itália e também pela censura da ditadura militar no Brasil.
A produção só voltou à forma original, como havia sido pensada pelo diretor e pelo roteirista, com a versão restaurada “Calígula: O Corte Final”, lançada em 2023 no Festival de Cannes, e que entra nesta quinta (5) no catálogo do streaming Filmelier+.
Nascido em março de 1933, em Milão, Tinto Brass adotou o seu nome artístico ainda criança, inspirado pelo pintor Tintoretto. O seu interesse pelo cinema foi alimentado por exibições na Cinemateca de Paris, em que trabalhou como arquivista durante a Nouvelle Vague, onda que revolucionou o cinema mundial.
Anos depois, o artista atuou como assistente de direção do diretor italiano Roberto Rossellini, expoente do neorrealismo italiano, em títulos como “De Crápula a Herói”, e do cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti.
A aproximação de Brass com o cinema erótico começou em meados da década de 1970, quando rodou o épico “Salon Kitty”, drama de 1976 sobre um bordel transformado em centro de operação nazista durante a Segunda Guerra, e “Calígula”, em 1979 -antes das alterações que levariam à versão maldita de 1984.
A partir daí, o diretor iniciou uma nova fase, marcada pelo foco em personagens femininas, pelas quais buscou explorar a libertação sexual, com títulos como “Miranda”, sobre a dona de uma estalagem rural vivida por Serena Grandi, e “Monella, a Travessa”, longa de 1998 em que Anna Amiratti vive uma mulher decidida a perder a virgindade antes de casar.
Artistas de renome, como Helen Mirren e Vanessa Redgrave, também atuaram em seus filmes. Mirren descreveu a experiência em “Calígula” como “extraordinária” e disse adorar Brass. “Eu adorava o caos e aquela espécie de anarquia radical”, disse a atriz durante o Festival de Berlim, em 2020.
Com o tempo, suas comédias eróticas formaram uma legião de fãs e fizeram bastante sucesso na Itália.
Em setembro, foi homenageado no Festival de Veneza, mas não foi ao evento por questões de saúde. “Fiz muitos filmes eróticos porque considerava o erotismo uma chave fundamental da expressão humana e, sobretudo, a chave para retratar as mulheres. Era isso o que mais me interessava”, disse o cineasta numa entrevista ao jornal italiano La Repubblica.
“Acredito ter contribuído para mudar um pouco a visão do eros [que pode ser entendida como a ideia de amor, na mitologia grega], ao menos para os espectadores que se aproximaram dos meus filmes”
Ele deixa a mulher, a atriz e advogada Caterina Varzi, e os filhos Beatriz e Bonifácio, que nasceram durante o seu primeiro casamento, com a roteirista Clara Cipriani.
‘Calígula’, foi censurado e chamado de ‘império da orgia’
“O mais polêmico e audacioso filme de todos os tempos: ‘Calígula’, o império da orgia.” Era assim que um empostado narrador anunciava, na TV aberta brasileira, a exibição de um filme sobre Roma Antiga na madrugada -naturalmente, não pelo seu caráter educativo.
O longa de 1979 do italiano Tinto Brass, morto nesta quarta-feira aos 93 anos, causou especial bafafá no Brasil em 1992, quando a rede Organizações Martinez -a mesma que exibia os berros justiceiros de Luiz Carlos Alborghetti- decidiu apelar para a audiência exibindo o filme numa programação com o sugestivo nome de Tensão Total. A vinheta era uma mulher rebolando em frente a uma grande letra T.
Com quase três horas, o longa foi dividido em duas partes pela emissora e, após um processo de obstrução na Justiça, só a primeira pôde ser exibida. Afinal, a versão editada que rodou o mundo em fitas clandestinas e DVDs de fundo de armário tinha closes de sexo oral e penetração que pareciam descolados do restante.
A produção tinha gabarito. Com roteiro de Gore Vidal, tem Malcolm McDowell, de “Laranja Mecânica”, no papel-título, ao lado de Helen Mirren e Peter O’Toole, numa obra retrata o governo do imperador romano como uma grande bacanal de poder, luxo e sexo.
A produção, porém, era de Bob Guccione, criador da revista masculina Penthouse. Foi ele quem insistiu nas surubas e decidiu por cenas explícitas após as filmagens principais. O trabalho acabou como um filme maldito para seus realizadores e estrelas -tanto que, à época do primeiro lançamento, Brass e Vidal tiraram seus nomes dos créditos.
O filme foi censurado em diversos países no início dos anos 1980, com cópias apreendidas no Reino Unido, Estados Unidos, Itália e também pela censura da ditadura militar no Brasil. Por aqui, a produção acabou sendo liberada em 1982, após uma decisão do juiz federal Laurindo Minhoto Neto. Dez anos depois, uma liminar judicial acabou barrando a exibição da segunda parte do filme na TV aberta, após a primeira parte ter batido 16 pontos de audiência na época.
A produção só voltou à sua forma original, por assim dizer, com a versão restaurada “Calígula: O Corte Final”, lançada em 2023 no Festival de Cannes, e que entra nesta quinta-feira (5) no catálogo do streaming Filmelier+.
Esta versão -fruto de um trabalho de três anos a partir de 96 horas de negativos originais e com uma nova introdução animada por Dave McKean-, porém, é bem menos escandalizante que a lenda.
McDowell faz um imperador serelepe e sem escrúpulos, dividindo os holofotes com uma jovem Helen Mirren, com 34 anos na época, como a libertina esposa Cesônia, e Peter O’Toole, vivendo Tibério.
Os cenários grandiosos, frontalmente artificiais, imprimem um visual teatral a partir do pastiche da arquitetura romana com o tom extravagante de um “Satyricon” -mas sem o talento de Fellini.
Assumidamente cômico, com um protagonista que berra, marcha nu, nomeia seu cavalo como chefe do senado e faz “fisting” num soldado, o filme tira sarro do poder e da decadência do Império Romano -e da hipocrisia do mundo moderno- em tom de pornochanchada.
Como é longo, aos poucos as gags parecem se empilhar sem muita razão em episódios que se unem por um fiapo de história -há humilhação de pessoas gordas, aparelhos de masturbação, soldados que lutam pelados contra plantas, estátuas de pênis e vaginas enormes, um personagem mudo digno de Zorra Total e até um parto a céu aberto.
É um circo de horrores em que os bacanais acabam sendo as partes mais agradáveis, como a coleção de “estátuas transantes” de Tibério, apresentadas num grande painel dantesco, ou o bordel imperial com as mulheres dos senadores, que ocorre num navio cenográfico.

