IDEC encontra agrotóxicos em alimentos ultraprocessados

GABRIEL ALVES

(FOLHAPRESS) – De um lado, o uso excessivo de agrotóxicos e seus efeitos deletérios para a saúde e para o ambiente; de outro, prejuízos de uma alimentação repleta dos chamados alimentos ultraprocessados. E quando esses dois problemas se aglutinam num só?

Uma análise feita pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) mostra que em boa parte dos alimentos ultraprocessados mais consumidos no Brasil -salgadinhos, cereais, biscoitos, entre outros- estão contidos agrotóxicos, como o herbicida glifosato, usado para eliminar ervas daninhas na lavoura.

Outro herbicida muito usado e também analisado é o glufosinato. Também foi verificada a presença de outros defensivos agrícolas, como pirimifós e carbendazim, além do butóxido de piperonila, que não é um defensivo, mas é usado para potencializar o efeito de alguns deles (e que não tem limites de segurança estabelecidos).

O uso de agrotóxicos é muito frequente nas grandes culturas de soja, milho e trigo, e há um patamar estabelecido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para as quantidades máximas de agrotóxicos nesses alimentos, o chamado limite residual máximo (LMR). As normas em vigor, porém, não contemplam alimentos industrializados.

Entre as 27 amostras analisadas a pedido do Idec, em 8 categorias (refrigerantes, bebidas de soja, néctares, salgadinhos, cereais matinais, biscoito água e sal, biscoito recheado e bisnaguinhas), 16 apresentaram ao menos um resíduo de agrotóxico -59% do total. Nas categorias dos refrigerantes e dos néctares não houve nenhuma detecção.

A metodologia utilizada envolve a busca pela “assinatura” dos compostos de interesse, com base no peso das moléculas de cada tipo de agrotóxico.

Teresa Liporace, diretora executiva do Idec, diz que hoje há estímulos excessivos ao uso de agrotóxicos.

“Existem incentivos agrícolas e créditos fiscais. Por outro lado, falta regulamentação para os alimentos ultraprocessados, que são vendidos até mesmo em escolas. Isso traz consequências não só para a saúde, mas para o erário público, que vai ter que lidar com quem adoece por causa dessa alimentação.”

Algumas consequências do consumo de ultraprocessados -alimentos que sofrem intensas modificações industriais- são conhecidas, como aumento do risco de aparecimento de doenças cardiovasculares, propensão ao ganho de peso e maior mortalidade.

Já no caso de agrotóxicos, os estudos que embasam o registro das substâncias apontam relativa segurança ao menos com relação à exposição aguda. Muitos deles são tão seguros quanto sal de cozinha e até menos perigosos do que remédios comuns, como a aspirina.

Ainda assim, existem casos de intoxicação, especialmente quando em quem habita a região onde há esses cultivos e quando aplicadores não fazem uso de equipamento de proteção.

Outro problema é que muitos agrotóxicos são poluentes orgânicos persistentes, ou seja, permanecem por muito tempo na natureza, sem se degradar, podendo ser levados pelo vento até mesmo para locais distantes de onde foram aplicados.

“Eles entram na cadeia alimentar e, quando ingeridos, mesmo em quantidades diminutas, vão se acumulando nos organismos das pessoas e dos animais, especialmente nos tecidos ricos em gordura. Eles atravessam a placenta e chegam no feto, vão junto com a gordura do leite materno que alimenta os bebês, atravessam a barreira hematoencefálica, chegando no sistema nervoso central”, afirma Josefa Garzillo, pesquisadora do Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP), que não participou do estudo do Idec.

Especula-se que entre as consequências desse efeito cumulativo estariam câncer, problemas de desenvolvimento fetal, doenças neurológicas, alterações comportamentais e perda cognitiva em escala populacional. “Nós estamos falando de resíduos de dezenas e dezenas de substâncias químicas agindo simultaneamente, não de um elemento só. Aí tudo fica mais complexo e mais grave”, diz Garzillo.

Para Liporace, soma-se à preocupação o fato de muitos dos produtos terem apelo de saudabilidade nas embalagens, com mensagens como “contém vitaminas” ou “mais energia para você”, o que, afirma, deve ser visto com ressalvas, especialmente pelos responsáveis por crianças.

Segundo Garzillo, o grande mérito da pesquisa do Idec é o de desfazer uma espécie de mito ou mal-entendido de que alimentos ultraprocessados estariam livres de agrotóxicos, ou que o processamento industrial os removeria de alguma forma. “Isso vai demandar ação concreta do poder público e das empresas.”

Os resultados do estudo foram encaminhados às fabricantes e também à Anvisa, com o objetivo de se iniciar uma discussão para ampliar a testagem de resíduos nos alimentos e criar uma norma que regule o setor, conta Liporace.

OUTRO LADO

A reportagem procurou as empresas cujos produtos continham agrotóxicos de acordo com a análise do Idec.

A M. Dias Branco, fabricante dos biscoitos água e sal das marcas Zabet e Vitarella, diz fazer análises do mesmo tipo em seus produtos, além de solicitar laudos dos fornecedores “sob pena de interrupção de abastecimento caso não haja entrega do laudo garantindo que estão dentro dos padrões de qualidade requeridos”.

A Pepsico, fabricante dos salgadinhos Torcida e Baconzitos, afirma que seus fornecedores passam por um rigoroso processo de homologação e são regularmente auditados. Para a empresa, “resíduos de agrotóxicos eventualmente encontrados nos produtos estão dentro dos níveis e parâmetros autorizados pela Anvisa para uso no cultivo dos vegetais, em especial do trigo e, portanto, são seguros para consumo humano.”

Já a Nestlé, fabricante do cereal Nesfit e dos biscoitos recheados Bono e Negresco, afirma que monitora os resíduos e que nos últimos dois anos “não há resultados fora dos parâmetros de segurança para as substâncias relacionadas pelo Idec, que já são devidamente contempladas no escopo de monitoramento da empresa”.

A Wickbold, que fabrica bisnaguinhas de mesmo nome e também da marca Seven Boys, afirma não ter detectado alterações em seus controles internos. “De qualquer forma, intensificaremos nossos controles nesse sentido, visando oferecer sempre produtos saudáveis e seguros aos nossos consumidores.”

A Arcor, do biscoito água e sal Triunfo, afirma que fez o rastreamento do lote analisado pelo Idec e que “foi verificado que não existe a possibilidade de o produto em questão ter tido qualquer resquício de tais substâncias acima do limite especificado para matérias-primas”.

A Bimbo, das bisnaguinhas Pullman, e a Mondeléz, dos biscoitos recheados Oreo e Trakinas, alegam não terem sido notificados pelo Idec, mas que seguem as normas vigentes. Na mesma linha, a Marilan, do biscoito água e sal de mesmo nome, afirma seguir as regras.

A Lactalis do Brasil informa:
– A empresa não foi comunicada nem notificada sobre qualquer informação referente ao presente estudo nem pelos órgãos competentes;
– Todos os insumos produzidos pela Lactalis do Brasil são controlados e monitorados através de laudos externos e atendem rigorosamente à legislação brasileira;
– A empresa tem uma política rígida na escolha de seus fornecedores de insumos, homologando apenas aqueles que cumprem com todas as exigências legais e de segurança alimentar. As avaliações desses fornecedores são feitas mediante laudos externos.

A reportagem não conseguiu contato com a empresa Panco, fabricante de bisnaguinhas.

 

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