Cirurgião plástico do RS é preso acusado de abuso sexual
Foi preso sexta-feira (16), na cidade de Gramado (RS), o cirurgião plástico Klaus Wietzke Brodbeck, investigado sob suspeita de abuso sexual de dezenas de vítimas.
A investigação por crimes contra a dignidade sexual teve início há seis meses, a partir de denúncias de doze vítimas contra o médico, que atende em uma clínica em área nobre da capital gaúcha e tem mais de 90 mil seguidores no Instagram.
Em uma operação desencadeada pela 1ª Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Porto Alegre (DEAM/POA) na terça-feira (13), foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão em endereços associados a Brodbeck.
Desde que o caso veio a público, 83 mulheres procuraram a polícia, segundo a delegada Jeiselaure Rocha de Souza, responsável pelas investigações.
Segundo Souza, o médico prestou depoimento nesta quinta-feira (15) e negou todas as acusações.
A prisão preventiva do médico foi decretada pela 2ª Vara Criminal do Foro Central da Comarca de Porto Alegre, após parecer favorável do Ministério Público. A decisão ocorreu após diversas vítimas procurarem a polícia se dizendo coagidas depois que a namorada do cirurgião publicou vídeos em redes sociais proferindo ameaças.
Foram registradas ocorrências policiais e instaurado inquérito policial contra a namorada, que também foi interrogada na quinta-feira. Ela não teve o nome divulgado.
De acordo com a Polícia Civil, que efetuou a prisão, o médico seria conduzido para a DEAM/POA, onde aguardaria uma vaga no sistema prisional.
O caso mais antigo que chegou à polícia teria ocorrido em 2001, segundo a delegada. O mais recente é deste ano. Os relatos vão desde toques, cantadas e ofertas de procedimentos estéticos em troca de favores que ele deixava implícito serem sexuais (que podem configurar crime de importunação sexual ou assédio sexual) até casos de estupro.
Um dos casos investigados pela polícia é um suposto estupro de vulnerável, que teria ocorrido quando a paciente estava sedada. O material relacionado ao caso ainda é objeto de investigação.
Uma ex-funcionária do médico, ainda segundo a delegada, relatou que ele andava nu no consultório, que o ouviu em mais de uma ocasião tendo relações com pacientes e que ele pedia que ela comprasse preservativos e que o filmasse. Nas buscas, foram apreendidos aparelhos eletrônicos.
Em seu Instagram Brodbeck afirma que é formado no Instituto Ivo Pitanguy, membro da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) e divulga a bioplastia, procedimento estético de injeção de produtos que pode ser feito em consultório.
Outro lado
A defesa diz na carta que, durante a oitiva do médico, na quinta-feira, tomou conhecimento de que o número de acusações contra ele era muito inferior ao que tem circulado na imprensa e que a carta se refere aos fatos que são de conhecimento dos advogados e de Brodbeck.
O documento cita quatro casos. O primeiro, que teria ocorrido em 2016, é o que a polícia investiga como estupro de vulnerável, já que teria sido praticado contra uma paciente sedada no bloco cirúrgico do Hospital Moinhos de Vento –a instituição é citada na carta, que não fala diretamente sobre o suposto enquadramento do crime.
A defesa questiona por que o caso só se tornou de conhecimento público cinco anos depois e afirma que a paciente teria sido ouvida duas vezes por um delegado, e que teriam chamado a atenção dele divergências nos relatos.
O segundo caso, ainda segundo a carta aberta, teria relação com a denúncia feita por “uma ex-funcionária do Dr. Klaus, que, na época em que trabalhava em seu consultório, gravou, sem seu consentimento, a intimidade do médico, repassando os vídeos para uma quadrilha que tentou extorquir o médico”.
A nota diz ainda que ele denunciou a tentativa de extorsão à polícia e que uma pessoa chegou a ser detida em flagrante, afirmando que conseguiu as imagens com a ex-funcionária; e que um grupo de presidiários estaria envolvido.
O documento no perfil do médico menciona ainda uma terceira denúncia, que seria “oriunda de uma paciente que fez acordo na esfera cível, decorrente de ação de danos morais e, em referido acordo, recebe valores para fazer constar no documento que os fatos não existiram e que não passaram de desentendimento”, e de uma quarta, que seria de “uma menina” que se apresentou como modelo e influencer para fazer parceria com ele, o que acabou sendo negado.
“Infelizmente, apenas um lado da história tornou-se público, ferindo a dignidade pessoal e prejudicando a imagem profissional do dr. Klaus Brodbeck”, diz o texto. A carta afirma que “todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que sua culpabilidade tenha sido provada”.
À Folha, depois da primeira fase da operação, desencadeada na terça, com dois mandados de busca e apreensão na clínica do médico, no bairro Três Figueiras, a delegada responsável pelo caso disse que o pai de uma das mulheres que foi até a delegacia disse que esperou 12 anos para que a filha fosse ouvida.
Jeiselaure Rocha assumiu a delegacia no fim do ano passado e iniciou a investigação há cerca de seis meses, reunindo 12 denúncias iniciais envolvendo o nome do médico registradas em ocorrências.
Questionada sobre o porquê da demora em apurar as denúncias antes, já que parte delas não seria recente, ela disse: “O importante é dar voz para essas mulheres que estão em silêncio há tanto tempo. Não tenho como responder pelas outras investigações, pelo sistema como um todo. Eu espero que essas mulheres continuem procurando a Polícia Civil, que confiem no nosso trabalho. Estamos apurando todas as ocorrências. Precisamos que as vítimas nos procurem”.


