Travessia Marins-Itaguaré é cercada de beleza natural e mistérios
Saindo de Campo Limpo Paulista e percorrendo 288 km até a cidade de Piquete, a 1.645 metros de altitude, começa uma das travessias mais clássicas do montanhismo brasileiro: a Marins x Itaguaré, na Serra da Mantiqueira. Dois picos que marcam a divisa entre São Paulo e Minas Gerais.
São aproximadamente 20 km de distância que a reportagem do Jornal da Região percorreu pelas cristas da Serra da Mantiqueira com o guia de trekking, Guilherme Penteado, da Eco Mochila Expedições, e o comerciante e montanhista, André Szabo, o Déco, além do repórter Mauro Utida. Foram três dias de trekking (caminhada pelas trilhas) e duas noites acampados nos cumes da Mantiqueira, com noites frias, porém pegamos um céu limpo, propício para observar as estrelas e fazer boas astrofotografias.

Chegamos na noite do último sábado (10) no estacionamento da base do pico do Marins, onde fomos bem recebidos por Dito, o proprietário da área, que autorizou que preparássemos nossa comida no fogão à lenha do restaurante da base e que dormissemos dentro do barracão. Nem foi preciso montar as barracas na primeira noite e ainda acompanhamos, pelo rádio, a vitória da Argentina sobre o Brasil, na final da Copa América, junto com a família que administra a área.
Confira o vídeo desta aventura:
Dia 1 – Marins
Acordamos cedo, preparamos o nosso café da manhã, arrumamos as mochilas e partimos em direção ao cume do Pico do Marins, a 2.420 metros de altitude. O Marins é o 26º pico mais alto do País e é formado por um grande maciço rochoso com paredões íngremes.
O local também é famoso pelo mistério que envolve o sumiço do escoteiro Marco Aurélio Simon, que desapareceu na trilha do Marins em 1985. Na época, o garoto tinha 15 anos. O caso é famoso entre montanhistas de todo o País e pode estar próximo de ser desvendado. (Leia mais sobre o caso abaixo).
A montanha é um importante destino para quem pratica trekking e a maioria dos visitantes costuma subir até o topo e retornar para a base no mesmo dia. Porém, é preciso um bom preparo físico e uma certa experiência em caminhada por terreno rochoso, incluindo alguns trechos que é preciso escalar as paredes de pedras.
Mas nossa intenção era realizar a travessia até o pico do Itaguaré. Travessia é o conceito dado a uma caminhada que começa em um ponto e termina em outro diferente. No montanhismo se tornou um conceito famoso, pois, de acordo com ele, para ir de um ponto a outro você não escala uma montanha somente, mas sim várias e de uma só tacada — geralmente escalando uma serra inteira.
Por ser uma travessia de vários dias na montanha é preciso levar uma mochila grande, de no mínimo 60 litros, para incluir a barraca, saco de dormir, isolante térmico, roupas, equipamentos, comida, utesílios para cozinhar, além de pelo menos três litros de água, pois na crista da montanha, há raras nascentes de rios e ficar sem água no caminho não é nada legal, garanto. A mochila chega a pesar mais de 15 quilos e é um dos fatores que mais causa o desgaste físico e dificulta a travessia. Ah, o percurso também exige uma bota confortável, chapéu ou boné, protetor solar, além de um bastão de caminhada que ajuda muito a aguentar o sobe e desce sem fim. É recomendado levar uma corda, pois acredite, você vai precisar.

Após cerca de sete horas subindo o maciço rochoso, chegamos no alto do Marins (acabados), montamos acampamento um pouco antes do cume, deixamos as mochilas e atacamos o ponto mais alto da montanha para assinar o primeiro livro, entre os três cumes que pretendíamos chegar. Deu tempo de contemplar o entardecer do dia, com o sol se pondo nas montanhas verdes de Minas Gerais. Do lado oposto do pôr do sol, a leste, dá para visualizar bem distante a Serra do Mar e mais ao norte é possível visualizar o Pico da Pedra da Mina (a quarta montanha mais alta do Brasil ) e logo atrás a Serra Fina, uma das mais importantes cadeias de montanhas do País.
De noite preparamos a nossa janta e logo dormimos, pois estávamos bastante cansados com o dia intenso de subidas, escalaminhadas e trepar em pedras com as mochilas pesadas.
Dia 2 – Marinzinho e Pedra Redonda

Despertamos para ver o sol nascer entre as colinas da Serra Fina e quando acordamos a grama em volta das barracas estava com os sinais da geada da madrugada. Preparamos nosso café da manhã, desmontamos acampamento e iniciamos o segundo dia que é o mais duro da travessia, porém o mais bonito também. Nosso objetivo era chegar o mais próximo do Itaguaré, antes do pôr do sol.
Depois de descer o cume do Marins, começa a subida para o topo do Marinzinho. Conseguimos encontrar uma nascente de água, enchemos as garrafas d’água e misturamos com pastilhas de cloro para consumirmos sem precisar passar por surpresas desagradáveis. No alto do Marins conhecemos o Fabio Azenha, que estava fazendo a travessia sozinho. Para a nossa sorte ele se juntou a nós, sorte porque ele tinha uma corda que nos salvou no momento que é preciso descer uma colina de pedras, mais a frente do Pico da Pedra Redonda. Essa parte foi uma das mais perigosas de toda a travessia.

A Pedra Redonda proporciona um dos visuais mais bonitos da aventura. Ela fica entre o Marinzinho e o Itaguaré e a forma como ela está encaixada em cima de outra pedra, chama a atenção. Veja a foto abaixo.

Neste dia nossa intenção era montar acampamento próximo ao Itaguaré, em um local que lembra a formação de pedras do Reino Unido, o Stonehenge, mas montamos acampamento uma montanha antes. Neste dia o céu estava fantástico, após o pôr do sol, a Lua crescente começou a descer e as constelações ficarem cada vez mais visíveis. O Guilherme Penteado levou sua câmara DSLR e conseguiu captar belas fotos nesta noite.

Dia 3 – Itaguaré

Nosso último dia de travessia começou descendo um vale extenso e já subindo uma outra montanha tão grande quanto. A esta altura, o meu tênis já estava com um buraco na sola que tive que remendar, minha bermuda com um rasgo que também remendei com silver tape e alguns rasgos nos bolsos laterais da mochila de tanto raspar nas pedras. Meu corpo também já estava sentindo bastante, principalmente as coxas. Também estávamos com pouco água e precisávamos economizar, o que não é nada legal.
Em aproximadamente quatro horas chegamos, finalmente a base do Itaguaré. Um pouco antes do cume, deixamos nossas mochilas e fizemos um ataque até o topo. Quer dizer, até o topo onde se encontra o livro de assinaturas, apenas o Déco e o Guilherme tiveram a coragem de subir. Eu preferi não me arriscar a passar por uma pedra no meio do abismo e saltar por outra para chegar a parte mais alta do Itaguaré, a 2.308 metros de altitude. Já foi uma vitória chegar até ali, andar três dias com uma mochila pesada nas costas, escalar rochas e enfrentar o mato alto.

Apesar de todo o perrengue, vale muito a pena o esforço para conhecer estas montanhas e todas as suas belezas de um dos pontos mais altos da Mantiqueira. Agora, só restava descer a trilha onde uma Van nos esperava para fazer o translado de volta para a base do Marins onde estava o nosso carro. Descemos junto com um grupo de quatro pessoas do Rio Grande do Sul. Quando chegamos ao veículo de resgate fomos recebidos com uma caixa de isopor com diversas cervejas geladas. Brindamos todos juntos aliviados de ter concluído são e salvos.

Mistério do Marins
Chegamos a base do Marins e um jantar feito no fogão à lenha com todo sabor mineiro nos aguardava. Jantamos com o seu Dito, sua família e outros moradores locais. Eles contaram que naquela terça-feira (13) repórteres estiveram na fazenda porque o delegado de Piquete iria reabrir o caso Marco Aurélio, que sumiu nas trilhas do Pico do Marins há 36 anos e não foi encontrado até hoje.
Isto porque uma das filhas do antigo dono da fazenda, teria informado que o corpo do garoto estava enterrado no local, onde hoje existe uma capela. Marco Aurélio pode ter sido morto pelo irmão desta mulher – que tinha problemas mentais – quando foi procurar socorro. O dono da fazenda, então, teria enterrado o garoto para livrar o filho e acobertar o crime. A informação, no entanto, não é confirmada pela Polícia Civil.
Marco Aurélio tinha 15 anos na época e acompanhava um grupo de escoteiros até o Pico do Marins. No meio do caminho, um dos integrantes do grupo se acidentou e o chefe dos escoteiros pediu para que Marco Aurélio descesse para pedir ajuda e abrir o caminho na mata. Durante a trilha, os demais se perderam e só chegaram ao acampamento na madrugada seguinte. Quando chegaram, Marco Aurélio não estava no local. O guia dos garotos, Juan Bernabeu foi apontado como principal suspeito, por ter deixado um garoto de 15 anos sozinho em um local que não conhecia.
Mais de 300 pessoas vasculharam o local por 28 dias em busca de alguma pista do que poderia ter acontecido. Polícia Militar, soldados, bombeiros, alpinistas, guias, voluntários, cães, especialistas em salvamento e até mesmo helicópteros e um avião da força aérea estavam envolvidos. Foram chamados sensitivos, cartomantes e videntes para ajudar na busca e nada foi encontrado.
A reabertura do processo foi determinada pela Justiça após o pedido do delegado Fábio Cabette. Ele recebeu novas provas sobre o sumiço de Marco Aurélio. As pistas vieram do próprio pai da vítima, Ivo Simon. Um amigo de Ivo continuou investigando o sumiço de Marco Aurélio por conta própria e descobriu, recentemente, uma testemunha que disse ter visto uma cova remexida na mata, na época do sumiço do garoto.
A Polícia Civil pretende fazer uma escavação no local indicado pela testemunha.

Apesar da retomada das investigações, mesmo que seja descoberto quem foi o responsável pelo desaparecimento de Marco Aurélio, o crime já prescreveu, portanto, não haverá punição.


