Vítimas da Covid ficam com sequelas no olfato e paladar

SAMUEL FERNANDES

(FOLHAPRESS) – A farmacêutica Vanessa Santos está com problemas no olfato e no paladar há mais de um ano, desde quando contraiu a Covid-19 pela primeira vez. “É muito [difícil] você não sentir cheiro de nada ou comer e não sentir gosto”, afirma.

Para pessoas como ela, a medicina ainda não encontrou caminhos eficazes para reverter esse problema de saúde. No Brasil, pesquisadores realizam estudos para entender quanto esses sentidos são afetados pelo coronavírus e também desenvolvem tratamentos.

“A alteração de olfato ou paladar é um dos sintomas mais comuns relatados pelas pessoas que testaram positivo para Covid”, afirma Marilia Mesenburg, pesquisadora do programa de pós-graduação em epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas.

Ela é uma das autoras de um estudo que analisou dados nacionais sobre a prevalência dos principais sintomas causados pela doença. Sobre modificações nas capacidades de sentir aromas ou sabores, foi visto que 56 a cada 100 pessoas cujo teste deu resultado positivo para coronavírus relataram alguma alteração.

Existem diferentes diagnósticos para mudanças no olfato. A anosmia é a perda total do sentido, e a hiposmia, a parcial. Quando o paciente troca os cheiros dos elementos, dá-se o nome de parosmia.

Problemas no paladar também têm algumas variações. A ageusia consiste em não ter mais o sentido gustativo, e a disgeusia é a complicação parcial do paladar.

Normalmente, alguém que é infectado pelo Sars-CoV-2 recupera os sentidos entre 2 e 3 semanas depois do início dos sintomas. Mas, às vezes, o caso se prolonga por mais tempo.

Um desses exemplos é o da aposentada Silvana Monteiro, que contraiu a Covid-19 em março do ano passado, apresentou problemas para sentir cheiro e sabor e não conseguiu retomar completamente os sentidos.

“O olfato até sinto alguma coisa, mas o paladar acho que está pior”, afirma. Em relação ao sabor, ela diz que consegue diferenciar somente entre doce ou salgado de forma genérica. Quanto a cheiros, sente somente um pouco dos mais fortes, como vinagre.

Monteiro já recorreu a três tipos de tratamento: medicamentos, treinamento olfativo e aplicação de laser nas narinas e na língua feita por uma fonoaudióloga. No entanto, diz que ainda “está muito longe para [recuperar no mínimo] 80%” dos dois sentidos.

Normalmente, o uso de remédios e o treinamento já são suficientes para recuperar o olfato e o paladar, afirma Fabiana Cardoso, professora do departamento de oftalmologia, otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

O uso de drogas é indicado principalmente para diminuir uma inflamação chamada edema, que impede a chegada das moléculas que causam os cheiros à região dos neurônios olfativos. “Se eu tiver um nariz bloqueado por causa de uma infecção, eu não consigo fazer o odor chegar até [os nervos]”, explica.

Já o treinamento tem a finalidade de exercitar a compreensão dos cheiros para que “o nariz se habitue novamente com as essências que ele já estava acostumado e tinha a referência”.

Cardoso foi uma das pesquisadoras de um estudo que envolveu diferentes cidades do país para entender quanto tempo demorava para uma pessoa retomar o olfato, acompanhando sobretudo pacientes com problema depois de contraírem o Sars-CoV-2.

No total, 150 pacientes completaram a pesquisa que teve uma primeira triagem para avaliar a perda do sentido. Depois de 30 e 60 dias, os participantes eram submetidos a testes para identificar cheiros de substâncias com olhos vendados.

“Mais de 30% [dos participantes do estudo] ainda mantinham algum grau de alteração do olfato mesmo 60 dias depois do diagnóstico e dos tratamentos que tinham sido instituídos para Covid”, afirma.

A situação de pessoas que perdem o olfato por mais de seis meses também chamou a atenção de Ronaldo Carvalho, médico otorrinolaringologista e professor do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe. Ele planeja uma cirurgia que pode ajudar esses pacientes a ter uma vida normal de volta.

Carvalho explica que esses indivíduos estão com o nervo olfatório danificado e, por isso, seria necessária uma intervenção para regenerá-lo.

“[Em outras áreas da medicina] existe uma técnica cirúrgica chamada transferência nervosa, onde se pegam fascículos [conjunto de células nervosas] de um nervo funcionando e nós desviamos esses fascículos para as regiões de nervos doentes. Esses fascículos […] fazem com que o nervo que está doente se regenere e volte a funcionar”, afirma.

Para o procedimento que ele planeja, será feita uma transferência nervosa do nervo supraorbitário, que fica acima da órbita do olho. “Fazemos uma pequena incisão desse nervo e vamos tentar ‘jogá-lo’ para dentro da base do crânio, que é onde está o neuroepitélio olfatório [onde se localizam os nervos responsáveis por interpretar os aromas e suas células de suporte]”.

A expectativa é que essa transferência ajude a regenerar o nervo olfatório danificado ou que esses fascículos realocados cumpram a função dele.

No momento, existem mais de 20 pessoas escaladas para a cirurgia. Uma dessas é a farmacêutica Vanessa Santos, que contraiu pela primeira vez o coronavírus em junho de 2020.

Ela relata que, ao comer um lanche, percebeu que não estava sentindo o gosto. Então, fez um teste e o exame acusou que ela tinha tido o Sars-CoV-2.

Depois de um mês com falhas no olfato e no paladar, ela buscou ajuda médica. A farmacêutica passou por três otorrinolaringologistas que indicaram tratamentos com diferentes remédios, treinamento olfatório e até uma terapia com ozônio que não tem eficácia comprovada.

Sentiu uma melhora com o treino feito com aromas, mas ainda foi um resultado bem pequeno. Sendo assim, buscou a ajuda de Carvalho. “Ele me explicou sobre o procedimento e perguntou se eu tinha interesse, e eu falei que sim”, diz.

No aguardo da cirurgia, Santos foi novamente infectada pelo coronavírus. “Antes, eu conseguia ainda […] diferenciar, às vezes, a questão do sabor, mas depois que tive pela segunda vez ficou bem mais complicado.”

A farmacêutica vê na cirurgia a última oportunidade para recuperar os sentidos. “É uma luz no fim do túnel, porque eu estava no escuro e isso é uma luz que surgiu para tirar essa angústia que sinto.”

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