GERAL

Ambulantes vendem cerveja a R$ 15,00 em SP

CARLOS PETROCILO, ISABELLA MENON E WILLIAM CARDOSO

(FOLHAPRESS) – Com a venda de cerveja a R$ 15 a garrafa long neck e a R$ 10 a lata, a presença dos blocos no Carnaval de rua fora de época em São Paulo, ainda que tímida, trouxe alívio aos vendedores ambulantes. Trata-se de um grupo que trabalha de maneira informal e foi prejudicado pelas medidas restritivas durante a pandemia de Covid-19.

A folia na rua e a Parada do Orgulho LGBT, prevista para o dia 19 de junho na capital paulista, são as festas mais lucrativas, segundo ambulantes ouvidos pela reportagem, nos dois primeiros dias de desfiles de blocos na cidade.

A dinâmica dos dois eventos, onde público e vendedores compartilham do mesmo espaço e debaixo de sol, contribui para o volume de vendas e, consequentemente, lucro.

Desta vez, como a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) cancelou o Carnaval de rua, coube aos líderes de alguns blocos organizarem toda a infraestrutura do cortejo e divulgá-la.

Com o evento sendo realizado de maneira informal, a Ambev, que pagaria R$ 23 milhões para patrocinar os desfiles de rua -cancelados em janeiro por causa da variante ômicron do novo coronavírus, que na época superlotou as unidades de saúde-, não teve exclusividade para vender os produtos de sua marca.

Na informalidade, há variedade de bebidas geladas e destiladas, assim como rótulos de cervejas, aos foliões. Entre elas, a Itaipava e a Heineken, que concorrem com a Ambev.

Em nota, a cervejaria que patrocinou os últimos Carnavais diz que segue estritamente o que está previsto nos editais de licitação e na legislação, inclusive para a relação mantida com ambulantes autorizados a atuar nos locais públicos. “Além disso, oferecemos a eles acesso a itens gratuitos de infraestrutura como caixas térmicas e guarda-sol, entre outros, além de facilidade logística para transporte dos produtos”, afirma.

“Muito folião gosta de outra marca. Quando é com a Ambev, fazemos um cadastro para trabalhar e só podemos vender pelo preço tabelado”, afirma Priscila Odete Barbosa, que agora diz calcular o preço que acha justo.

Ela e o marido deixaram a casa em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, para vender bebidas durante o desfile do bloco Baco do Parangolé, no bairro da Água Branca, zona oeste da capital. Eles levaram caixas de isopor lotadas de garrafas long neck, latas e gelo.
Priscila e Patrícia Rufino, outra vendedora ambulante, dizem que a margem de lucro quase dobrou. “A gente recebia de R$ 2 a R$ 3 livre para cada latinha vendida. Estamos tirando livre agora, pelo menos, R$ 6”, afirma Patrícia.

O valor líquido, segundo Priscila, é apurado após descontar os gastos com aquisição das mercadorias e o gelo. “Mas temos ainda as nossas despesas, a viagem de Itaquaquecetuba até São Paulo, a alimentação e, principalmente, nossa diária”, diz Priscila.

No bloco Feministas, na Barra Funda, também na zona oeste, o ambulante Victor Cotias afirma que o fluxo de vendas no feriado prolongado de Tiradentes está bom, mas ainda não supera o do Carnaval oficial. “Está bom, mas isso aqui é só um esquenta”, afirma.

Outro ponto positivo, na opinião dos vendedores, é o fato de conseguirem negociar com o cliente o preço, sem a necessidade cumprir à risca qualquer tabela.

A reportagem observou o momento em que uma foliona pediu por uma cerveja e perguntou o preço. Ao ser informada que custava R$ 15, a mulher argumentou que havia comprado antes três unidades por R$ 10 cada. Priscila, então, disse que a “casa abriria uma exceção”.

Para o vendedor Thiago Monteira, que trabalha nas ruas há 12 anos, apesar da vantagem de poder praticar o preço, há um clima de insegurança com a ausência de uma patrocinadora. “A Ambev, no caso, nos credencia, então a prefeitura não pode recolher nossos produtos. Estamos correndo um risco assim. A vantagem é somente a do preço mesmo”, diz.

A queixa, porém, é quanto ao esvaziamento da folia nas ruas. Com o receio de sofrer represálias por causa da falta de apoio da prefeitura e de operações especiais da Polícia Militar e da GCM (Guarda Civil Metropolitana), nem todos os blocos divulgam a sua programação, o que de certa forma resulta numa menor adesão de foliões, quando comparado às edições anteriores.

Em meio à falta de informações, os ambulantes compartilharam em grupos de WhatsApp a localização dos blocos mais animados para encostar o carrinho cheio de bebidas.

“A gente nunca vem na certeza. Sai procurando”, diz o ambulante Rafael Lima de Oliveira, 32. Já na rua, entra em ação o espírito de colaboração entre eles, maior do que a concorrência. “A gente se comunica bastante”, afirma.

Oliveira investiu R$ 2.000 em bebidas, que ganham gelo só no caminho entre a zona leste, onde mora, e o centro expandido, cenário do Carnaval. No feriado de quinta-feira (21), ele parou na rua Barra Funda, onde foliões se reuniram no Bloco do Amor.

A camareira Rosenilda Rosa, 49, aproveita o Carnaval para complementar a renda. Ela soube por um grupo de WhatsApp que o Bloco do Amor tinha gente suficiente para compensar a viagem de metrô desde a zona leste. “A gente precisa se virar. Fiquei desempregada durante um tempo”, afirma.

Para alguns dos ambulantes, o lucro seria maior se houvesse mais divulgação, como costumava acontecer em outros Carnavais.

“Quando acontece o Carnaval oficial, tudo é divulgado, é evento de grande porte e você ganha porque tem muito público”, afirma Abel Costa, que aguardava na região da Barra Funda a indicação do melhor bloco para se instalar.

Apesar da solidariedade entre parentes, amigos e alguns grupos maiores formados no aplicativo de mensagens, também há disputa feroz por espaço ao redor dos blocos.

Nesta sexta-feira (22), por exemplo, dezenas de vendedores já disputavam espaço no entorno da praça Olavo Bilac, no centro, à espera dos foliões do Bloco Feminista. A rede de informações de cada um dos grupos já dava conta de que ali seria o desfecho da festa.