A história de Jundiaí sob o véu de Nossa Senhora do Desterro
Por André Schüller, psicanalista
Resgatando a história que sustenta há gerações o conhecido feriado local em 15 de agosto, descubro uma falta de conhecimento preocupante da parte de muita gente.
Isso porque a homenagem feita à padroeira de Jundiaí tão somente acabou por rechaçar do imaginário popular um evento fundamental para o surgimento desse município, algo que devemos reparar ao lado de outro problema que eventualmente retorna: a suposição de que os italianos trouxeram para a futura terra que muito ajudaram a desenvolver a partir da metade final do século XVIII um forte enlace religioso com a figura de Nossa Senhora dos Desterrados.
Em ordem: o dia 15 de agosto indica fundamentalmente a chegada do primeiro grupo de bandeirantes em um trecho da atual Serra do Japi que seria considerada Jundiaí hoje; isso, em 1639 e não 1651 como acaba sendo dito em caráter equivocado sempre que o assunto é trazido a tona. Nesse sentido, acho importante destacar os nomes ainda do casal tido como o dos primeiros povoadores, no caso, Rafael de Oliveira “Filho” (ou “mosso”, como lido nos documentos) e sua esposa (Maria Cordeiro) – contrário à lenda propagada por diferentes veículos atestando a presença de uma dupla que inexistiu: a do pai desse Rafael (seu homônimo, Rafael de Oliveira “Velho”) e uma tal Petronilha Antunes.
Segundo ponto: cientes de que Rafael de Oliveira “Filho”, sua esposa, dois irmãos pelo que sabemos (Pedro e Alberto) e uma comitiva de 300 pessoas firmaram residência em solo jundiaiense propriamente no dia 15 de agosto de 1639, o que pode ser dito em seguida toca um costume antigo alimentado pelos bandeirantes. Exploradores desse tipo justificavam seus massacres ou buscavam a sensação de proteção espiritual em figuras religiosas, sendo esse o contexto então, responsável pela insurgência da figura de Maria no que diz respeito ao município de onde falamos – para quem não sabe, Maria é “Nossa Senhora do Desterro”, por referência ao período em que a sagrada família esteve no Egito fugida quando Jesus era ainda pequeno.
Quem, portanto, primeiro enlaçou Jundiaí à figura de Maria desterrada foram os bandeirantes que por aqui estiveram a partir de 1639, e o que aconteceu a seguir acaba sendo digno de nota.
Pelos próximos 16 anos, ou seja, de 15/8/1639 a 13/12/1655, foi se organizando em direção ao atual centro da nossa cidade um aglomerado de sítios que atendia pelo nome de “freguezia”. Essa freguesia respondia administrativamente às ordens da antiga “Villa Sant’Anna de Parnayba”, divisa com “Juquery” (perto da capital), mas só até o dia 14 de dezembro de 1655.
A partir desse momento a freguesia “dos desterrados de Jundyay” foi elevada à categoria de “villa” chamada “Nossa Sra. do Desterro de Jundiay” justamente, termo preservado por 210 anos até o alcance da vila em “cidade” – que, aí sim, passou a atender pelo nome de “Jundiahy” tão somente.
Conclusão: o conhecido feriado municipal comemorado em agosto por aqui deve ter como referência um dos efeitos dessa bandeirada exploratória exigido pela coroa portuguesa da época, cujo apoio espiritual dos membros era a figura de Maria em sua face desterrada. Tal ligação dos primeiros bandeirantes seria deslocada para a construção de uma grande capela cujo nome foi dado ao monumento (aí sim) em 1651, capela essa elevada ao posto de catedral com o passar do tempo.


