quinta-feira, 4, junho, 2026, 02:18
CIDADESJUNDIAÍ

Jornalista fala sobre Emerson Leite, que morreu na Dom Gabriel

O jornalista Alcir de Oliveira fez um texto detalhando como foi o início de carreira de seu colega, Emerson Leite, de 47 anos, que morreu em acidente de moto na Rodovia Bispo Dom Gabriel Paulino Bueno Couto, no Km 62, em frente ao Motel Veredas, na noite de sexta-feira (14). Emerson se envolveu em colisão contra uma carreta carregada com bebidas que seguia na pista sentido Cabreúva.

Despedida

* Alcir de Oliveira

Não é nada fácil escrever sobre a morte de um colega de trabalho, ainda mais quando se trata de alguém que chegou para conquistar nossa admiração e ganhar nosso respeito. Eu já era “cinquentão” quando ele foi apresentado a todos nós da redação do Jornal da Cidade como o novo office-boy, mas também para atuar como um auxiliar do seu pai, Lázaro Moura Leite, o Lazinho, que coletava, aos domingos, todos os resultados das partidas do futebol amador para o redator de esportes alimentar a editoria.

O Emerson Moura Leite tinha só 15 anos, mas parecia um profissional já experiente, pois transformava os rabiscos do Lazinho em pérolas do jornalismo esportivo e seus textos já previam um futuro brilhante para ele quando chegasse a hora. Textos que, aliás, passavam direto das suas mãos para o diagramador, tamanho era seu talento para escrever. E não era só sobre esporte, não. Muitas vezes ele era solicitado para redigir textos de outras editorias, auxiliando um pouco aqui, outro ali. Só não saía às ruas acompanhado de um fotógrafo porque a idade não permitia.

Certo dia, o Emerson deixou o JC e foi trabalhar numa instituição que acolhia deficientes visuais ali na rua Prudente de Moraes, exatamente onde o encontrei pensativo, esperando o retorno do almoço. Ele me confessou que tinha se arrependido de sair do jornal e que, talvez, seu caminho fosse mesmo o Jornalismo. Em poucos dias, depois de eu relatar esse encontro para o nosso editor-chefe, o saudoso Sidney Mazzoni, eis que encontro o Emerson sentado à mesa, fazendo a Olivetti tilintar a toda velocidade. Nessa volta ao JC, ele não precisava mais atender o telefone e nem cuidar da correspondência. Estava nascendo ali um monstro do Jornalismo. Até matérias especiais, aquelas de páginas inteiras, tudo ele fazia.

Um dia, na verdade, em 1990, fui pego de surpresa pelo Sidney Mazzoni, que foi até à Secretaria de Comunicação da Prefeitura, onde eu trabalhava – como funcionário concursado, ressalte-se – para me comunicar, em primeira mão, que estava deixando o JC, para assumir a direção do caderno de esportes do Jornal da Tarde e que houvera me indicado ao Pedrão (Pedro Campos, dono do JC) para ocupar sua vaga como editor-chefe, cargo que ocupei até 2020, quando, já “sessentão”, resolvi me proteger da pandemia de Covid e me isolei em casa, com a esposa e os filhos.

Tive a honra de ser chefe do Emerson por alguns anos, até que ele, já muito pronto para conquistar novos horizontes, deixou o JC. Mas o destino – ah, o destino – inverteu toda a história. Em 2013, o candidato Pedro Bigardi se elegeu prefeito de Jundiaí e, ao montar sua equipe na Secretaria de Comunicação, levou o Emerson com ele, com quem já trabalhara quando era deputado estadual.

Uma semana antes de Pedro Assumir, eu estava sozinho na Secretaria, quando vejo o Emerson chegando. Me chamou pelo vidro e eu pedi que entrasse. Ele só estava de passagem e queria me dar um “oi”. Mas o fato foi que nossa conversa girou em torno de como lidar com um chefe prestes a receber ordens de um ex-comandado. Difícil explicar o tamanho da doçura do Emerson ao comentar que, hierarquia à parte, seríamos uma equipe, todos no mesmo barco e com um único propósito: sermos profissionais e servir à cidade.

Eu sempre insisti em chamar o Emerson de “chefinho” e me orgulhava disso, porque ele sabia conduzir sua função de Diretor de Comunicação com tamanha seriedade e delicadeza que nem parecia mais se tratar de um local de trabalho, embora muito trabalho era produzido.

Quando deixei a Prefeitura, em 2015, o Emerson me acompanhou até à porta da Secretaria. Me deu um abraço e me agradeceu. Na verdade, quem tinha de agradecer era eu, justamente por ele ter me proporcionado uma experiência tão gratificante, troca de comando, diferença de idade, o cuidado com a coisa pública, enfim, deu tudo certo. Só não contava que tomaríamos rumos diferentes, razão pela qual, o contato passou a ser menos frequente.

E hoje, infelizmente, fui tomado pela triste notícia da sua partida, que se deu de uma forma tão violenta. O Emerson envolveu-se, com sua moto, em um acidente na Rodovia Dom Gabriel. Com certeza estava voltando de casa, ali pela região do Eloy Chaves, já que sua esposa, Isabela, que trabalhou conosco na Secretaria de Comunicação, onde se conheceram, era de lá.

Só queria acrescentar que esse texto, embora eu me aproprie de mais da metade da história, não diz respeito ao meu trabalho ou à minha história de vida. Mas não tem como separar. Tenho certeza de que, nesse exato momento, dezenas de outros jornalistas estão sentindo a mesma coisa ao mesmo tempo: “o Emerson é uma perda para toda a classe jornalística da cidade”.