terça-feira, 2, junho, 2026, 18:34
JUNDIAÍ

Psicanalista André Schüller destaca o feriado mais importante de Jundiaí

“O feriado mais importante de Jundiaí”
Por André Schüller

O dia 15 de agosto, feriado municipal de Jundiaí, é celebrado há gerações. Mas poucos conhecem a verdadeira história por trás da data — uma história ligada diretamente à origem do município, e não apenas à devoção religiosa à padroeira, Nossa Senhora do Desterro.

Com o tempo, a tradição popular acabou relegando ao esquecimento um fato fundamental: 15 de agosto marca, antes de tudo, a chegada, em 1639, do primeiro grupo de bandeirantes à região que hoje conhecemos como Jundiaí. Um marco histórico que, por engano, ainda é frequentemente datado de 1651.

Naquele ano, Rafael de Oliveira “Filho” — também identificado em documentos como “mosso” — chegou acompanhado da esposa, Maria Cordeiro, de dois irmãos (Pedro e Alberto) e de uma comitiva de cerca de 300 pessoas, em sua maioria indígenas escravizados. Ao contrário do que indicam lendas perpetuadas nos últimos dois séculos, não se tratava de Rafael de Oliveira “Velho” nem de sua suposta esposa fugida da capital paulista, Petronilha Antunes — cujo nome batiza hoje uma rua do centro da cidade.

A escolha de 15 de agosto e a associação à figura de Maria “desterrada” têm relação com um costume dos bandeirantes: eleger, para cada expedição, uma figura religiosa que simbolizasse proteção e devoção. No caso de Jundiaí, Nossa Senhora do Desterro — representação da fuga da Sagrada Família para o Egito — tornou-se o símbolo espiritual da chegada.

Entre 15 de agosto de 1639 e 13 de dezembro de 1655, o núcleo inicial se estabeleceu em diferentes pontos da Serra do Japi, formando a “freguezia” então subordinada à antiga “Villa Sant’Anna de Parnayba”, uma das extremidades da atual cidade de São Paulo.

Em 1655, a freguesia foi elevada à categoria de “villa”, passando a se chamar “Villa Formoza de Nossa Senhora do Desterro de Jundiay”. O nome se manteve por mais de dois séculos, até a transformação em cidade, quando adotou a forma simplificada “Jundiahy”.

O feriado que celebramos em 15 de agosto é, portanto, herança de um duplo vínculo: o marco da chegada dos primeiros bandeirantes e a devoção religiosa que acompanhava aquela comitiva — momento que, embora doloroso sob certas perspectivas, permanece histórico. A ligação com Nossa Senhora do Desterro foi reforçada em 1651, com a construção de uma capela dedicada à santa.

Mais do que uma tradição religiosa, 15 de agosto é o aniversário simbólico do nascimento de Jundiaí.

*André Schüller é psicanalista e pesquisador – autor, entre outros, de “Como tudo (finalmente) começou: as histórias documentadas da mãe, do pai e do mentor de Freud” (2025).