quarta-feira, 26, agosto, 2026, 10:57
VARIEDADES

Novo livro de José Eduardo Leonel resgata a Paraty oitocentista em trama sombria de poder e mistério

O mestre e doutor em Direito, palestrante e escritor José Eduardo Leonel está de volta à ficção com “O anteparo”, seu novo romance ambientado na Paraty do século XIX. Após estrear com o livro de crônicas “Escravos da Insensatez”, o autor investe no gênero romance, em uma narrativa regada a traição, orgulho, ocultismo e amores proibidos, que acompanha a história de David Gotardo, filho de escravizado que trava uma luta sangrenta pelo poder com os senhores de engenho da região.

Cenário

A trama se passa entre 1850 e 1860, período em que Paraty gozava de extraordinária prosperidade, acumulando a riqueza dos engenhos de açúcar com a do porto estratégico de escoamento do café do Vale do Paraíba para o Rio de Janeiro. Vantagem que só se perdeu por volta da década de 1870, com a construção da ferrovia Dom Pedro II. Foi também nessa época que começava a se inflamar o movimento abolicionista, que atravessa importantes diálogos do livro. Boa parte das histórias do romance foi construída a partir de relatos orais da avó do autor, historiadora que residia perto da cidade colonial e conhecia suas histórias e lendas.

Após um hiato de alguns anos, o mestre e doutor em direito, palestrante e escritor José Eduardo Leonel volta a publicar uma obra na categoria de ficção. Depois de sua estreia com o livro de crônicas “Escravos da Insensatez”, José Leonel investe no gênero romance.

“O anteparo”, o título de sua nova produção literária, paga tributo à paixão que o autor tem pela História ao centrar sua trama na Paraty do século XIX, narrando os dramas humanos que se sucedem em meio a uma feroz disputa pela hegemonia entre os senhores de engenho de então.

A trama

A trama de “O anteparo” segue a história de David Gotardo, filho de um poderoso e cruel senhor de engenho já falecido, e sobre cuja origem paira uma suspeita: nasceu pardo, possível fruto de um romance entre a sinhá e um escravizado. Essa dúvida silenciosa acompanha o protagonista, ainda que muitas vezes de forma velada, por todo o livro.

Quando começamos a acompanhar a trajetória de David, ele já é um jovem e promissor senhor de engenho, que alforriou todos os escravizados de suas terras e os contratou como empregados seus. Suas ações despertam inveja e raiva nos demais usineiros de Paraty, pois, além da postura libertária, provê a população local com benfeitorias gerais e com favores pessoais, tornando-se
figura altamente respeitada entre os mais humildes, com uma força moral superior a qualquer outra autoridade constituída da cidade.

Seu maior desafeto é Lindolfo Labres, senhor de engenho mais velho que tinha muito medo do velho Gotardo e, agora, teme – e odeia – seu filho. Nhô Lindolfo confia na sua impiedade e no respaldo de forças ocultas para vencer David. Outros dois personagens que marcam contraponto ao protagonista da trama são nhô Cláudio, amigo do velho Gotardo, mas que não tem a mesma afeição pelo seu filho e o coronel Prates, noivo de Hermínia, a irmã de David, sujeito covarde e ambicioso, e que se aproxima, em segredo, dos outros inimigos do protagonista.

Na outra ponta, fechando fileiras com David, estão as personagens femininas de grande força dramática. Hermínia, sua irmã, que nutre um amor incondicional pelo irmão. Cristina, a ama dinamarquesa de Hermínia, mulher desejada por muitos em Paraty e que, ambígua, é amante
dos inimigos Lindolfo e Davi, caminhando sobre uma linha tênue de interesse, lealdade e paixão. Há também dona Zélia, ex-escravizada e empregada do solar dos Gotardos. Fiel à família, principalmente à David, revela-se muito mais importante e poderosa do que se acreditava de início.

Mais recente livro de José Eduardo Leonel, “O anteparo”, é uma obra que transita entre o drama histórico, romance, terror, e é um thriller de primeira linha, com arcos narrativos e tramas que vão se desenvolvendo num crescente, marcados por viradas imprevistas e com um desfecho impactante que ao mesmo tempo conecta com maestria todas as pontas soltas do enredo. Apesar de também tratar de temas tabu para nossa sociedade, o objeto principal do livro é a luta pelo poder.

Essa disputa brutal expõe as fissuras de uma sociedade injusta, construída sobre a escravidão e a exploração implacável da miséria humana. Ao percorrer as ruas, os engenhos e os segredos dessa Paraty de um passado tão marcado pelo pêndulo agudo entre a decadência e esplendor, e ao perceber-se como parte dessas histórias de paixão e vingança, o leitor será seduzido pelas qualidades demasiadamente humanas dos personagens e pelos mistérios da trama.

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