domingo, 30, agosto, 2026, 17:00
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Metrô de São Paulo aposenta de vez bilhete magnético após mais de 50 anos

FÁBIO PESCARINI

(FOLHAPRESS) – Em setembro de 1974, paulistanos curiosos com o revolucionário transporte público a ser inaugurado no dia 19 daquele mês, tinham a oportunidade de conhecer o metrô. Para circular pelas estações, porém, precisavam passar um cartão magnético pelas catracas, mesmo sem cobrança de tarifa pelo fato de aquela ser uma fase de “treinamento para a população”, como rotulado na época.

Esses bilhetes em papel-cartão gratuitos foram substituídos pelos pagos quando os trens começaram a rodar de verdade —o modelo marrom, de 1974, tinha a singela mensagem “economize gasolina”. Ao longo do tempo vieram cerca de três dezenas de outros, mas agora acabou. A partir de novembro, não passarão mais pelas poucas catracas que ainda os aceitam.

O Edmonson, como esses cartões magnéticos são chamados —em homenagem ao sistema criado pelo inglês Thomas Edmondson no século 19— finalmente vai se aposentar.

Segundo o Metrô, em julho passado foi estipulado internamente um prazo de 90 dias, que vence em 31 de outubro, para os passageiros que ainda contam com eles usarem os bilhetes.

Depois disso, os usuários ainda poderão trocar os remanescentes até janeiro de 2027 em postos de atendimento específicos que serão definidos.

Os bilhetes magnéticos estavam praticamente aposentados desde 2021, quando deixaram de ser fabricados com a implantação de tecnologias digitais, como leitura de QR code. Mas em março do ano passado, funcionários da companhia estatal acharam um lote com oito milhões de unidades, que acabou colocado à venda.

Esse estoque deixou praticamente de circular em junho passado, diz Anísio Oliveira Silva, 67, coordenador de Arrecadação e Comercialização do Metrô.

Segundo ele, 6,5 milhões desses bilhetes entraram no sistema. Os outros 1,5 milhão podem ter ficado com pessoas que guardaram os objetos como recordação e que se ainda quiserem usar, terão de correr contra o tempo.

Esses milhões de cartões estão sendo fragmentados em uma máquina no pátio do Metrô em Itaquera, na zona leste de São Paulo —nesta quinta-feira (27), quando a reportagem esteve ao local, havia ao menos uma tonelada desses papéis picados prontos para serem enviados à reciclagem.

Ficaram algumas poucas unidades para preservação. Anísio começou a trabalhar no metrô há 44 anos justamente na bilheteria, ou seja, vendia os cartões, onde ficou por dois anos. Hoje ele é responsável por manter um acervo. Todos os modelos, desde os de treinamento até o último tipo a ser confeccionado em 2007 (e que continuou sem mudanças até 2021), estão guardados em pastas catalogadas por ele.

“Isso aqui é um passo a passo da vida do metrô”, diz o funcionário, que conhece como poucos a história da evolução desses bilhetes magnéticos.

Lembra, por exemplo, quando a companhia encomendou para o fornecedor argentino, que havia ganhado a concorrência para confecção dos bilhetes, um lote comemorativo aos 30 anos de circulação dos trens, em 2004. No caminho do aeroporto até a sede da empresa no centro de São Paulo, a carga foi roubada e nunca chegou às mãos dos passageiros.

Cada vez mais raros, os Edmonson são bens colecionáveis e valiosos. Em um site de venda pela internet, um dos modelos de testes de 1974 é comercializado por R$ 250.

Uma unidade desse bilhete e do primeiro comercial, além de outros históricos, está em um quadro na sala do Fábio Siqueira Neto, 54, diretor de operações do Metrô.

O material pendurado na parede é do acervo pessoal do executivo, funcionário da empresa há 35 anos e que afirma ter como primeira memória de criança quando foi levado pelo pai para uma viagem na fase de testes do metrô.

Ele não revela o tamanho da sua coleção. Ela é formada por bilhetes usados ou que apresentaram defeitos. Há também alguns especiais que afirma ter comprado, como o da edição comemorativa pelos 450 anos da cidade de São Paulo, de 2004.

“Os bilhetes foram como eu entendi que conseguiria guardar a cronologia do metrô.”

Segundo dados do Metrô, desde o início da operação comercial até julho passado, foram utilizados 13.759.071.500 bilhetes Edmonson. Enfileirados, chegariam a quase 900 mil km e poderiam dar aproximadamente 22 voltas na Terra, conforme cálculos feitos a partir de inteligência artificial.

EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

Tanto os primeiros equipamentos de leitura quanto os próprios bilhetes magnéticos dos anos iniciais foram importados da França.Houve nacionalização do processo, com produção na Casa da Moeda, e a fase dos fabricados na Argentina.

A logística ia muito além daquele pequeno pedaço de papel com 6,5 cm de comprimento e 3 cm de largura. Fora a produção, havia gastos com transporte, armazenamento seguro —há um cofre com grades nas paredes internas em Itaquera—, distribuição às estações e reposição constante dos estoques.

Só na fragmentação, o processo diário chegou a envolver cinco pessoas. Tudo isso passou a ser substituído com a implantação do Bilhete Único —cartão de leitura eletrônica com armazenamento de créditos —em meados dos anos 2000.

Bem diferente do início. Numa época em que não se sonhava com internet, todo o processamento de dados era feito por um único computador central, que precisaria ler e ter capacidade de aprovar simultaneamente a passagem de bilhetes por 340 catracas da linha 1-azul, a primeira do metrô paulistano. “Era um negócio extraordinário para a época”, diz Siqueira.
Hoje, passageiros podem encostar seus telefones celulares ou relógios inteligentes para fazer o pagamento da passagem direto nas mesmas catracas que deixarão de receber os bilhetes com seus mais de 50 anos de história gravados em tarjas magnéticas.

 

FOTO: REPRODUÇÃO