Brasil precisa ser de Cristo, diz Flávio Bolsonaro após polêmica de Nossa Senhora
ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
(FOLHAPRESS) – O que Flávio Bolsonaro quis dizer quando, em agosto, disse que um dos seus primeiros atos se eleito presidente seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”?
Sua campanha diz em nota, após ser questionada pela reportagem, que “Flávio Bolsonaro sempre defendeu o total respeito a todas as religiões e formas de expressão da fé” e que “fará uma oração antes de ler o termo de posse quando assumir a Presidência da República entregando o Brasil a Jesus Cristo, numa ação simbólica de agradecimento e também como um pedido de proteção e benção para todos os brasileiros”.
Afirma também que “dizer que o Brasil será de Jesus Cristo é apenas uma forma figurada de ressaltar a importância da paz, da proteção e da esperança que, sob a Presidência de Flávio, voltarão a ocupar espaço na vida dos brasileiros”.
Se o candidato do PL sente necessidade de explicar a fala, é porque o ruído em torno dela tem sido considerado catastrófico em sua equipe, com potencial de causar dano junto ao eleitorado católico.
O presidenciável fez a promessa num vídeo em que justificava sua ausência num debate da Band. Não iria, afirmou então, porque Lula (PT) também faltaria, e ele gostaria de debater “com quem não acredita em Deus” Flávio dava corda na ocasião para uma fake news de que Lula seria ateu.
A declaração passou relativamente batida, mas ressurgiu com força na reta final da campanha, atrelada a outra notícia falsa, agora contra Flávio: a de que ele se empenhará em remover Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira se suceder Lula na Presidência. Não há quaisquer evidências sólidas de que ele se movimentou para algo assim.
A fala de agosto foi interpretada como um apito de cachorro. É uma expressão usada para mensagens codificadas que parecem inofensivas para o público geral, mas carregam um significado específico para determinado grupo numa alusão aos apitos de alta frequência que os cães conseguem ouvir, mas os humanos, não.
O recado cifrado seria, no caso, que uma presidência de Flávio significaria privilegiar evangélicos em detrimento de outros grupos religiosos. Como essa corrente cristã não cultua santos, não vê a Virgem Maria como santificada. A mãe de Jesus é apenas uma serva de Deus para os crentes.
Não dá para inferir, com apenas essas informações, que Flávio pretende resgatar um projeto de lei apresentado há 19 anos pelo pastor Victório Galli, e arquivado no ano seguinte sem nenhum apoio consistente dos pares deputados. Galli chegou a ser assessor de Jair Bolsonaro (PL) em 2019, mas nunca mais se falou no PL que ele propôs quase duas décadas atrás.
A desconfiança em torno de Flávio não se baseia apenas na declaração de agosto: também pesa o fato de o bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, igreja em Brasília onde o candidato foi batizado em 2024, já ter criticado a devoção a Nossa Senhora.
Em seu livro “A Bomba – A Verdade Pode Ser Explosiva”, o líder evangélico diz que “quando Jesus veio ao mundo e o cristianismo tomou o planeta, as deusas foram destronadas e vistas como demônios e prostitutas”.
Uma vez banidas, porém, teriam dado um jeito de se associarem ao cristianismo. “A Rainha dos Céus, a soberana entre elas recebeu o nome de Maria.”
Continua Carvalho: “Grave bem isto: a Rainha dos Céus era cultuada em todo o mundo pagão e foi adotada pelo cristianismo com o nome de Maria. Não é que ela seja Maria. Ela usa a imagem de Maria para enganar as massas e ser adorada no lugar do Único Deus”.
É nesse contexto que ele defende que Aparecida não seja a padroeira do Brasil.
Para o doutor em ciências da religião e pastor batista Kenner Terra, não dá para cravar o nome que o filho evangélico do católico Jair pretendia ao dizer que, num governo seu, o Brasil seria decretado de Jesus e se isso representa alguma ameaça real ao status de Aparecida como padroeira. “É difícil saber o que exatamente essa frase significa nos lábios de Flávio, além de um aceno ao eleitorado evangélico.”
Dependendo do contexto, contudo, “ela pode tensionar a ideia de Estado laico, na medida em que apresenta a visão de mundo de um grupo religioso como referência para a identidade do país”, afirma.
Mais seguro é afirmar que essa frase de Flávio “parece ser uma tentativa de fortalecer seus laços com os evangélicos, que vêm sofrendo tensão em razão dos últimos escândalos”, diz Terra. “A expressão é muito comum entre determinados grupos cristãos e pode significar várias coisas: a expectativa de conversão em massa de uma cidade ou país, a incorporação de princípios morais religiosos à esfera pública ou mesmo a eleição de evangélicos para espaços de poder.”

