Espetáculo gratuito da Troupe Guezá reúne mulheres de diferentes gerações
O que acontece quando mulheres que deveriam estar invisíveis começam a saltar, voar, sustentar e ocupar o centro da cena? É a partir desse confronto que a Troupe Guezá apresenta CORP+S, espetáculo contemporâneo de circo que usa a acrobacia como linguagem de resistência aos padrões impostos aos corpos. A apresentação gratuita acontece em 10 de outubro, às 17h, no Circo Escola Edgar Cabide, em Franco da Rocha, dentro do projeto de circulação do espetáculo pela capital e pelo interior de São Paulo, viabilizado pelo ProAC 31/2025 – Apoio a Espetáculos ou Números de Circo.
Antes do espetáculo, das 14h às 16h, o projeto promove uma oficina gratuita de acrobacia coletiva, aberta a participantes a partir de 4 anos. A proposta é experimentar confiança, escuta, cooperação e construção coletiva do movimento — princípios que estão no centro da própria dramaturgia de CORP+S.
Em CORP+S, o circo deixa de ser apenas espetáculo de técnica e virtuosismo. Saltos, voos, equilíbrios e pirâmides humanas tornam-se ferramentas para colocar em cena uma pergunta incômoda: quem decidiu como uma mulher deve parecer, se comportar e até que idade pode ocupar determinados espaços? A resposta vem em forma de movimento. Mulheres de diferentes gerações entram em cena para fazer aquilo que historicamente lhes foi negado: ocupar espaço, assumir riscos, demonstrar força, sustentar e ser sustentadas. Não há tentativa de esconder a idade, suavizar o corpo ou adequá-lo a um padrão. Ao contrário: a experiência, a memória, a técnica e a presença tornam-se parte da potência dessas artistas.
O espetáculo confronta a lógica que associa o corpo feminino à juventude, delicadeza, beleza e contenção. Em CORP+S, mulheres não estão em cena para serem observadas. Estão para agir. É também nesse ponto que a obra toca no etarismo: corpos que a sociedade costuma considerar velhos demais continuam saltando, criando, arriscando, desejando e ocupando o centro da cena. Em uma linguagem tradicionalmente associada ao risco, ao virtuosismo e à potência corporal, CORP+S coloca mulheres como protagonistas de ações que exigem força, precisão, coragem e confiança. Elas carregam. São carregadas. Sustentam. São sustentadas. Caem. Voltam. Recomeçam.
O corpo feminino aparece, assim, longe da imagem de fragilidade que tantas vezes lhe é atribuída. Mas o espetáculo não substitui um padrão por outro: também questiona a obrigação de ser forte o tempo inteiro. A potência está justamente na possibilidade de ser forte e vulnerável, independente e interdependente, experiente e aberta ao risco. A discussão se amplia para diferentes corpos e identidades de gênero, incluindo experiências LGBTQIAPN+, propondo um espaço cênico em que a diversidade não precisa ser enquadrada para existir.
NINGUÉM SE SUSTENTA SOZINHO
Na acrobacia coletiva, uma artista literalmente coloca o próprio corpo nas mãos de outra. Não existe performance individual absoluta: existe confiança. É preciso escutar, observar, reconhecer limites e assumir responsabilidade pelo outro. Essa dinâmica transforma a técnica em metáfora para uma sociedade que cobra das mulheres uma lista impossível de atributos: jovens, bonitas, fortes, produtivas, independentes, disponíveis e incansáveis.
CORP+S propõe outra lógica. Aqui, força também é pedir apoio, é sustentar, é ser sustentada e é confiar. O coletivo não nasce da homogeneidade, mas da diferença. Corpos, idades, histórias e experiências distintas encontram uma forma de permanecer juntos — literalmente, uns sobre os outros.
O próprio título da obra traduz essa ideia. Em CORP+S, a palavra “corpo” aparece de forma neutralizada, enquanto o símbolo “+” remete à multiplicidade de identidades e à soma de corpos, forças, histórias e desejos que se encontram em cena.
UM CIRCO QUE NÃO PEDE LICENÇA PARA EXISTIR
Há 25 anos, a Troupe Guezá, fundada em São Paulo por Rubia Neiva, desenvolve pesquisas relacionadas às práticas corporais e à acrobacia de solo, coletiva e aérea. Estreado em 2025, CORP+S integra essa trajetória de investigação sobre corpo, presença e criação no circo contemporâneo. Com direção acrobática de Rubia Neiva e direção artística de Gabriel Madrigano, o espetáculo reúne artistas de diferentes gerações e identidades para confrontar uma ideia persistente: a de que alguns corpos têm mais direito do que outros de ocupar determinados lugares.
UMA EXPERIÊNCIA GRATUITA PARA TODAS AS IDADES
A apresentação em Franco da Rocha integra a circulação de CORP+S e amplia o acesso ao circo contemporâneo para públicos de diferentes idades. A oficina que antecede o espetáculo também reforça a proposta de aproximar o público do processo criativo e das práticas acrobáticas.
Mais do que assistir, a proposta é experimentar no próprio corpo conceitos que atravessam a obra: confiança, cooperação, escuta, risco e coletividade.
CONHEÇA
Instagram: @troupegueza
SERVIÇO
CORP+S – Espetáculo Contemporâneo de Circo
Data: 10 de outubro de 2026
Horário do espetáculo: 17h
Local: Circo Escola Edgar Cabide – Rua Joaquim Nunes Pereira, 180 (Parque Municipal), Centro, Franco da Rocha – SP
Oficina de acrobacia coletiva: das 14h às 16h
Classificação da oficina: a partir de 4 anos
Entrada: gratuita
Acessibilidade: sim
Público: toda a população, todas as idades
Realização: Troupe Guezá
Fomento: ProAC 31/2025 – Apoio a Espetáculos ou Números de Circo
FICHA TÉCNICA
Rubia Neiva Neves Nasser — Direção acrobática e acrobata
Andreia Katrina Moura — Acrobata
Camila Leticia Costa — Acrobata
Ester Ramada Santana — Acrobata
Julia dos Reis de Freitas — Acrobata
Munique Tavares Guimarães — Acrobata
Paolla Wurlitzer Castillo — Acrobata
Rachel Monteiro dos Santos — Acrobata
Gabrielli Vitterbo Brasil Lima — Acrobata
Lie Erika Hirai — Acrobata
Sabrina Cristina da Paixão Santos — Acrobata
Loyane Patek Eidam Zambrzyck — Acrobata
Matheus Mendonça Aquino — Acrobata
Priscila Rodrigues Florentino — Acrobata
Uirá Santos — Produção
Gabriel Madrigano — Direção artística

