domingo, 4, outubro, 2026, 20:41
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Flávio Bolsonaro e Lula estão no 2º turno, projeta Datafolha

IGOR GIELOW

(FOLHAPRESS) – O senador Flávio Bolsonaro (PL), 45, vai enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80, no segundo turno das eleições deste ano, no próximo dia 25. É o que projeta o Datafolha com base no resultado com 47,26% das urnas apuradas.

Às 19h08 deste domingo (4), o filho de Jair Bolsonaro marcava 50,2% dos votos válidos (que excluem os brancos e nulos), contra 41,6% do petista, tornando a ida para o tira-teima inevitável, segundo o instituto.

O segundo turno está em linha com o que se viu na campanha desde que Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão por ter tentado dar um golpe ao não aceitar a derrota para Lula em 2022, indicou seu primogênito como sucessor nas urnas, no fim de 2025.

Inicialmente recebido com descrédito até por aliados, tanto que não recebeu apoio formal e teve de sacar um vice desconhecido, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), Flávio consolidou-se rapidamente apenas sendo filho de quem é.

Seus rivais à direita, que tinham esperança de emergir como alternativas na polarização brasileira, fracassaram com índices abaixo dos dois dígitos durante toda a campanha.

Ficaram para trás ex-governadores bem avaliados como Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG), além de uma figura saída do mundo das redes, Renan Santos (Missão). Quem insinuou um crescimento, o “outsider” Augusto Cury (Avante), logo murchou.

FLÁVIO USOU E ESCONDEU BOLSONARO

Durante a campanha, o senador buscou ampliar seu escopo eleitoral e escondeu o pai da propaganda eleitoral, usando sua imagem apenas em momentos simbólicos, como no lançamento da candidatura —quando o fantasma digital de Bolsonaro discursou via inteligência artificial.
Flávio apostou no antipetismo e viu a crise do Supremo Tribunal Federal respingar politicamente mais no presidente. O cancelamento do debate da TV Globo na quinta passada (1º) virou munição devido à interferência judicial de última hora nas regras do jogo.

Ao fim, não foi mau negócio para o senador, que não participou de nenhum debate. Seu histórico no setor é marcado pelo desmaio durante um embate na campanha a prefeito do Rio em 2016, quando ficou em quarto lugar.

Além disso, Flávio escapou de escrutínio público acerca das acusações de malfeitos que acompanham sua carreira, das “rachadinhas” e relações com milicianos quando era deputado estadual no Rio ao caso “Dark Horse”, sobre o qual se recusa a apresentar contas da relação financeira com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

O impacto para Lula, que atribuiu à ausência no debate da Globo do primeiro turno de 2006 a necessidade de enfrentar seu hoje vice Geraldo Alckmin (então no PSDB), é discutível.

Em nenhum momento da campanha atual as pesquisas apontaram o petista como vencedor já no primeiro turno deste domingo, ainda que elas sejam só instantâneos impactados pela realidade de abstenções e decisões de última hora.

Para o eleitor, será o terceiro segundo turno com um Bolsonaro enfrentando um petista na urna eletrônica desde 2018, quando o obscuro deputado Jair conduziu uma vitoriosa campanha calcada na captura da centro-direita pela retórica mais radical.

Fruto da implosão da política tradicional pela corrupção revelada pela Operação Lava Jato, depois desmontada sob Bolsonaro e por seus próprios abusos, o cenário de 2018 repetiu-se como farsa em 2022, quando o presidente já tinha entregado o governo ao centrão que criticava para se manter no poder.

CASO MASTER DESARRUMOU A CASA POLÍTICA

Derrotado por Lula, Bolsonaro engendrou um golpe fracassado e pelo qual está preso em casa, ainda vendo o 8 de Janeiro como espasmo final de uma intentona contra o petista. Lula surfou a união institucional daquele momento, mas não durou muito.

Logo entrincheirou o governo junto ao Supremo, como contraponto a um Congresso hostil e empoderado pelo controle orçamentário via emendas. Viu Bolsonaro ser preso, mas também o crescimento das acusações de autoritarismo judicial, centradas na figura de Alexandre de Moraes.

O caso do Banco Master desarrumou a casa da política, atingindo gente de toda coloração ideológica, mas foi Lula quem pagou mais pela associação com Moraes, embora isso não pareça aferível em votação. É uma crise inconclusa, até porque Flávio é investigado sob suspeita de corrupção e evasão de divisas na relação com Vorcaro.

O presidente, de seu lado, tem as apurações sobre negócios de seu filho Fábio Luís, o Lulinha, para incomodar, ainda que em grau indireto.

Na campanha do primeiro turno, Lula teve em seu favor a caneta, embora sem muita tinta. Reajustou o Bolsa Família em 15%, algo que só chegará à vida real agora para o segundo turno, e acabou por medida provisória com as bets, mirando um público feminino periférico importante.

A economia, em tese vendável por indicadores saudáveis de inflação e emprego, não lhe ajudou, cortesia de juros altos para tentar estancar efeitos da expansão de gastos em meio à degeneração das contas públicas.

Ao fim, ainda contou com a fake news de que Flávio ia cancelar, digamos, Nossa Senhora Aparecida, retirando seu título oficial de padroeira do Brasil. Houve impacto positivo para Lula entre católicos, mas também entre evangélicos em favor do senador.

Com os partidos satisfeitos ou não com a formação de suas bancadas para o objetivo primário de controlar emendas orçamentárias, agora será a hora dos apoios. O desenho nacional é desfavorável a Lula, mas o que importa é o desempenho em colégios eleitorais populosos.

AGORA É A HORA DE APOIOS

Do ponto de vista partidário, é previsível que o centrão vá de Flávio, até por afinidade de identidade, enquanto MDB e o empoderado PSD busquem neutralidade com liberação de apoios individuais —Caiado deverá declarar voto anti-PT enquanto o cacique Gilberto Kassab trabalhará mais pelo presidente, por exemplo.

Lula poderá contar com um último potencial tiro com a colocação em votação, pelo Senado, do fim da escala 6×1, uma bandeira com aprovação na casa dos 80% da população. Se isso o ajudará, é incerto.

Para o Brasil, é a repetição de um ciclo, mas provavelmente a última no formato conhecido. Lula, que fará 81 anos neste mês, provavelmente não disputará mais nada após este pleito. Se ganhar e não tentar uma improvável mudança de regras, só poderia voltar a concorrer com quase 90 anos.

Se perder, o processo de criação de uma sucessão no PT irá se impor, e o mau desempenho eleitoral do herdeiro presumido do petista, o três vezes derrotado em sequência Fernando Haddad, jogará dúvidas sobre seu nome.

Já Flávio, 45, encarna um projeto de dinastia familiar em nível federal no Brasil. Ganhando, sua retórica de que abrirá espaço para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) em 2030 será colocada em dúvida no primeiro momento.

Perdendo, ficará sem mandato e tenderá a ser absorvido pelas disputas intestinas do bolsonarismo, que começam em casa. Terá a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com quem não se dá, como adversária de primeira hora para liderar o clã.

A direita, por sua vez, tenderá a se organizar em torno de Tarcísio ou outro nome que desponte nos próximos anos. Isso garantirá que a dicotomia entre campos à esquerda e à direita seguirá, restando saber se com o mesmo acirramento atual.

Foi Lula quem introduziu o conceito de “nós contra eles” na política, mas só em sua quarta disputa conseguiu triunfar, em 2002. De lá para cá, o PT esteve em todos os segundos turnos, com o bolsonarismo substituindo o falecido tucanato de 2018 para cá.

Neste segundo turno, há também o fator Donald Trump, que apenas foi sugerido na primeira rodada. O presidente americano, orbitado pelo bolsonarismo, é visto como uma ameaça ao processo eleitoral pelos petistas.

Não é segredo que o republicano quer uma constelação de satélites aliados nas Américas, e tem sido bem-sucedido até aqui, embora não integralmente: México, Canadá e Brasil são hoje baluartes de peso contra os planos descritos na Estratégia de Segurança Nacional de 2025.

Ao mesmo tempo, o americano evitou declarações explícitas de apoio a Flávio até aqui, e reabriu negociações comerciais após um telefonema com Lula.

Uma escalada de ações americanas pode ter o condão de ajudar o petista, que no tarifaço do ano passado se beneficiou em termos de avaliação de governo da hostilidade de Trump, algo que não lhe rendeu frutos aparentes no primeiro turno.