DATAFOLHA ANUNCIA REELEIÇÃO DE LULA
Igor Gielow | Folhapress
SÃO PAULO, SP – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e foi reeleito neste domingo (25) para o quarto mandato, feito inédito na história brasileira, segundo projeção do Datafolha. Para projetar a vitória, o instituto acompanha os dados da apuração divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, por meio de sistema próprio, estima o resultado considerando o agrupamento de eleitores por mesorregião e natureza do município em cada estado. Quando há número razoável de votos apurados nesses grupos, é possível concluir que o candidato não poderá mais ser ultrapassado.
A vitória veio após uma campanha acirrada, na qual Lula ficou em segundo lugar no primeiro turno contra o filho de seu antecessor e antagonista Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado após perder o pleito de 2022 para o petista. É a primeira vez que um candidato consegue tal virada no segundo turno desde o primeiro pleito presidencial direto da redemocratização, em 1989. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) venceu Aécio Neves (PSDB) depois de largar atrás nas pesquisas do segundo turno, mas havia chegado em primeiro na rodada inicial.
O dia da votação refletiu a tensão. O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou, de forma inédita, a votação em todo o país por duas horas, após queixa da campanha do PT sobre obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, entre eles os populosos São Paulo e Bahia. O episódio teve contornos partidários: apesar de o problema ter sido apontado desde cedo, o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE e associado ao bolsonarismo, não se mexeu. Coube ao ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, determinar o prolongamento da votação, sendo seguido pelo colega.
Aos 81 anos, que completa na próxima terça-feira (27), Lula é o mais idoso ocupante do cargo na história. Com o triunfo, somou sete disputas à Presidência, tendo vencido quatro. O resultado foi definido nos momentos finais de uma campanha polarizada e de uma reviravolta de tática no segundo turno. A rejeição era a mais notável certeza do eleitor ao ir às urnas, com cerca de metade do eleitorado dizendo não votar em cada um dos rivais.
Lula passou a campanha do segundo turno em modo mais contido, esquecendo que só havia vencido o então impopular Bolsonaro, em 2022, por menos de 2 pontos percentuais. Só acordou para o embate nos momentos finais, contando com anúncios como a proibição das bets e o reajuste do Bolsa Família, além da polêmica em torno de Nossa Senhora, que impulsionaram o voto em segmentos como mulheres periféricas e católicos.
Flávio, por sua vez, apostou no antipetismo e aproveitou a crise na cúpula do Judiciário, primeiro pelas relações de ministros ligados a Lula com o caso Master, depois pela interferência que levou ao cancelamento do debate da TV Globo antes do primeiro turno. Vencedor da primeira rodada por 47,03% a 45,16% dos votos válidos, o senador adotou postura de vencedor antecipado: falou como eleito, viu alianças consolidadas à direita e nomes de seu ministério serem especulados e sugeriu uma obscura mudança constitucional para “redemocratizar o Brasil”.
O presidente, após uma primeira semana de desgaste com aliados, mudou o comando da campanha e entregou a estratégia digital ao deputado André Janones (Rede-MG), que montou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com mais de 10 milhões de seguidores na reta final. Flávio tentou bloquear o canal com o auxílio do presidente do TSE, ministro indicado por seu pai. Houve idas e vindas, mas o canal operou até o fim.
Em paralelo, o risco da volta de um Bolsonaro ao poder mobilizou a militância de esquerda e os centristas que já haviam votado em Lula em 2022. A partir dos estudantes, o segundo turno foi marcado por manifestações grandes e mais orgânicas, sem a organização tradicional de sindicatos, o que desafiou a primazia da direita nas ruas, vigente desde os atos de 2013. Os rivais ainda se enfrentaram duas vezes ao vivo, algo inédito, nos debates da Band e da Globo: o primeiro foi marcado por grosserias e baixo nível, e o segundo, na noite de sexta-feira (23), teve agressividade, mas com mais comedimento.
Trump e o temor da ingerência
Nada indica que Lula terá paz até a subida da rampa do Planalto, em janeiro. Um foco de atenção do governo é a administração do presidente americano Donald Trump, que mantém relação ciclotímica com o petista e é próximo do bolsonarismo. Integrantes do governo passaram o pleito alertando para indícios de que Trump trabalharia em favor de Flávio, já que a eleição de governos populistas de direita nas Américas é um plano declarado do republicano em sua Estratégia de Segurança Nacional. Na prática, porém, o americano nada fez para apoiar Flávio, e a suspeita de ingerência estrangeira recaiu sobre a big tech Meta, investigada pelo TSE por tratamento diferenciado a conteúdos de Lula.
Resta saber se o pragmatismo na negociação em torno do tarifaço americano contra o Brasil, que seguiu mesmo com a turbulência eleitoral e com o trabalho ativo nos Estados Unidos de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, será mantido. O presidente eleito tem agora dois meses para tentar reduzir as grandes tensões políticas e econômicas e deve contar com o apoio de siglas que já sustentam seu governo, como o PSD de Gilberto Kassab e o MDB, além de alas do centrão.
A tarefa não será simples, a começar pela crise no Judiciário. O pleito indicou claramente a divisão entre ministros lulistas e bolsonaristas, e uma solução parece difícil, ainda mais com uma bancada de direita robustecida no Senado, Casa onde pode ser apresentado pedido de impeachment de ministros da corte. Na economia, o mau humor do mercado com o perfil gastador do governo poderá aumentar se não houver sinalizações de austeridade, algo que passou longe do discurso de campanha. Diferentemente de 2022, não haverá no Congresso a boa vontade para aprovar uma PEC que assine um cheque em branco ao governo logo na largada. O caso Lulinha, que envolve o mais exposto dos cinco filhos do presidente, ainda pode render respingos, mas não teve impacto significativo na eleição.
Derrota abre disputa no bolsonarismo
Para o bolsonarismo, a derrota de Flávio abre uma disputa por protagonismo na direita. Um ano atrás, o senador não era considerado sucessor natural do pai, que acabara de ser preso. Nomes da órbita bolsonarista, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), eram vistos como opções capazes de aglutinar apoios mais amplos no centro e no centrão. A unção que Flávio recebeu do ex-presidente, preso em 5 de dezembro de 2025, foi recebida com ceticismo até por lideranças do PL. Se o candidato do clã precisava ter o sobrenome Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle parecia figura mais palatável.
O senador fluminense, eleito em 2018, era visto como pesado eleitoralmente pela coleção de escândalos associados a seu nome, e sua relação próxima com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, ainda nem havia sido revelada. Hoje ele é investigado por suspeitas sobre o dinheiro que pediu para a cinebiografia “Dark Horse” e pela relação com lavagem de dinheiro com bets. Já havia contra ele acusações de rachadinha nos quatro mandatos como deputado estadual no Rio, dúvidas sobre seu patrimônio e a relação próxima com milicianos.
Sem mandato, Flávio perderá espaço de articulação, e Tarcísio, reeleito no primeiro turno ao bater novamente o herdeiro presumido de Lula, Fernando Haddad (PT), está na linha de largada para ocupar o vácuo até 2030. Por outro lado, o ativo do sobrenome Bolsonaro mostrou-se forte, dada a competitividade do senador e o desempenho de candidatos associados ao grupo pelo país. O Congresso e os estados têm mais coloração à direita, e a polarização que domina a política brasileira desde 2018 pode ganhar nuances, mas seguirá viva. A vitória também dá um respiro ao PT, que enfrentaria uma hecatombe com a derrocada de seu líder histórico.
Lula mira a sucessão
Sem direito a novo mandato após 2030, Lula terá de organizar sua sucessão, o que passa por sua aliança mais imediata, restando saber que papel caberá ao vice, Geraldo Alckmin, e ao PSB. Nas últimas semanas, o presidente tem falado cada vez mais em legado. Se de fato deixar o cargo em 31 de dezembro de 2031, só perderá para Getúlio Vargas em tempo de serviço no poder: 16 anos, ante 18 anos e meio do gaúcho.
Para alguns aliados, a perspectiva garante um mandato mais livre e talvez propenso a inovações que deixem marcas, ausentes em sua terceira passagem pelo Planalto. Outros temem uma guinada final à esquerda, inspirada pelo que esses petistas veem como influência excessiva da primeira-dama, Janja, que rebate a crítica acusando misoginia. Qualquer movimento mais brusco causaria atritos, em especial se a degradação das contas públicas seguir acelerada.
Um problema adicional é a crise no Supremo. Desde que assumiu, sob o impacto do 8 de Janeiro e da insurgência bolsonarista, Lula firmou uma aliança tática com parte da corte. Mas o tribunal está em convulsão, e parece improvável que possa seguir exercendo o papel de contrapeso em favor do Executivo diante de um Congresso que era hostil e agora será ainda mais.
Publicado em 25/10/2026, às 20h52 (horário de Brasília)

