Doria anuncia desfiliação do PSDB
DANIELA ARCANJO, SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O ex-governador de São Paulo João Doria anunciou nesta quarta (19) a desfiliação do PSDB após 22 anos.
“Encerro minha trajetória partidária de cabeça erguida. Orgulhoso pela contribuição que pude dar a São Paulo e ao Brasil, graças à generosidade e à confiança de todos aqueles que optaram pelo meu nome em três prévias e duas eleições”, escreveu o empresário em nota.
A saída ocorre após uma tentativa frustrada de concorrer à Presidência pelo partido neste ano. Em 2021, Doria venceu Eduardo Leite (PSDB), hoje candidato ao Governo do Rio Grande do Sul, em prévias tumultuadas.
A candidatura não emplacou: em março, o ex-tucano tinha 2% das intenções de voto em pesquisa do Datafolha. Pressões da cúpula da legenda provocaram seu anúncio de desistência da corrida pelo Palácio do Planalto, em maio.
Assim, pela primeira vez em sua história, o PSDB não foi cabeça de chapa em um pleito presidencial -lançou a senadora Mara Gabrilli (PSDB) como candidata a vice de Simone Tebet (MDB).
Desde que sua candidatura naufragou, Doria voltou a se dedicar a negócios privados e criou uma consultoria. Ele tem afirmado que virou a página e não guarda mágoas após ter sua candidatura presidencial enterrada.
Doria declarou que votará nulo no segundo turno, em que Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) concorrem à Presidência.
Ao anunciar a saída do PSDB, Doria mandou recados a Bolsonaro. “Enquanto alguns atores da política se omitiam durante a mais grave pandemia dos últimos cem anos, lutei desde o início para que nosso povo tivesse acesso a uma vacina contra a Covid-19. […] Jamais cedi ao negacionismo ou a falsidades que contrariam a ciência.”
O atual governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), que teve a candidatura à reeleição patrocinada por Doria e terminou em terceiro lugar, já declarou apoio a Bolsonaro. Em entrevista à Folha no último dia 4, Doria disse discordar, mas evitou criticar a adesão ao bolsonarismo.
Questionado na ocasião sobre deixar o PSDB, Doria afirmou que não pensou nisso. Rodrigo, por sua vez, também está cada vez mais isolado na sigla, e aliados afirmam que ele deve se filiar à União Brasil.
Em sua nota, Doria afirma que “a omissão, a letargia e o imobilismo” não fazem parte de sua vida. “Não cedi a pressões e me mantive firme na defesa dos valores sociais e democráticos”, diz.
Doria, que é apontado como responsável pela debacle do PSDB na eleição deste ano, afirmou à Folha que não faz sentido atribuir essa culpa a ele. “Eu sustentei o PSDB como governador do Estado de São Paulo. […] Alguém que foi vitorioso e que fez um bom governo vai ser culpado pelas falhas, omissões e equívocos do PSDB?”, devolveu.
Eleito no primeiro turno à Prefeitura de São Paulo contra Fernando Haddad (PT) em 2016, Doria passou 15 meses no cargo e renunciou mil dias antes do final do mandato para disputar as eleições ao governo do estado. Na época, o agora ex-tucano era a aposta de Geraldo Alckmin (PSB), que também deixou o PSDB e hoje é cabo eleitoral de Haddad para o governo paulista e candidato a vice na chapa de Lula.
O empresário começou a corrida à prefeitura como um desconhecido de grande parte da população e venceu após se apresentar como um gestor e surfar no antipetismo e na rejeição à política tradicional.
Ao longo de 2017, quando já estava à frente da Prefeitura, Doria percorreu o país para se tornar mais conhecido e se lançar à Presidência no ano seguinte, rivalizando com Alckmin, seu padrinho político.
Em setembro do mesmo ano, Alckmin tornou público o rompimento com o empresário durante uma entrevista. “Uma vez meu pai me falou: ‘Lembre-se de santo Antônio do Pádua. Quando não puder falar bem, não diga nada'”, disse sobre o correligionário. O atual vice de Lula acabou sendo o candidato à Presidência do PSDB no ano seguinte.
Doria, por sua vez, conseguiu uma nova vitória em 2018, ao derrotar Márcio França (PSB) e se eleger em segundo turno para o Governo de São Paulo. Naquela eleição, emplacou a dobradinha BolsoDoria, que apoiava Bolsonaro na disputa presidencial. A união durou pouco e os políticos romperam no primeiro ano de mandato.
A pandemia de Covid-19 foi o principal assunto que opôs Doria e Bolsonaro. A rejeição do então tucano perante os eleitores do presidente era uma das razões apontadas para que sua candidatura presidencial não pontuasse nas pesquisas.
Como governador de São Paulo e com planos de disputar a Presidência, Doria buscou controlar o PSDB, mas acabou agravando divisões internas -algo que consolidou entre os tucanos a visão de que o empresário não tinha traquejo político e abusava do marketing.
Além de Alckmin, Doria comprou brigas com Aécio Neves (PSDB-MG) e Leite. Também gerou um desgaste com o presidente da sigla, Bruno Araújo, em um jantar que escancarou o desconforto com Doria no partido.
Depois de vencer as prévias sob acusações veladas de adversários, já que os tucanos paulistas chegaram a tentar filiar prefeitos fora do prazo para garantir votos, Doria patrocinou a filiação de seu vice, Rodrigo, no PSDB.
Atual governador, Rodrigo colocou fim a quase 30 anos de governos do PSDB em São Paulo ao terminar o primeiro turno em terceiro lugar.
O resultado do primeiro turno das eleições deste ano foi o pior da história do partido, que saiu quase um nanico.
A sigla não elegeu nenhum governador em primeiro turno, perdeu nas urnas o controle histórico que mantinha sobre São Paulo, também não emplacou nenhum senador e viu sua já pequena bancada de 22 deputados federais ser reduzida a 13.
“Com minha missão cumprida, deixo meu agradecimento e o firme desejo de que o PSDB tenha um olhar atento ao seu grandioso passado em busca de inspiração para o futuro”, escreveu Doria na nota desta quarta.


