quinta-feira, 4, junho, 2026, 10:57
DESPEDIDASJUNDIAÍ

Neta faz homenagem ao avô Waldomiro Bulhões

Waldomiro Bulhões faleceu no último sábado, 30 de novembro, em Jundiaí, sua cidade natal, aos 88 anos de idade. Em sua homenagem, sua neta Sarah escreveu um texto.

“BULHÕES.

Alguns gostavam de chamá-lo assim, Sr. Bulhões ou Vô Bulhões. Para mim era Vô Waldomiro. E só de escrever essas duas palavras, eu as repito baixinho, quase num suspiro. Vô Waldomiro.

Das poucas coisas que me lembro quando pequena, o desafio de escrever o nome dele era uma delas. Não entendia o W com som de V. O nome era muito comprido. Nove letras. Um nome diferente. Bruto demais. Rústico demais. Nome de quem ensinava lições e ditava regras. E ai de quem não seguisse exatamente a cartilha dele. Tintim por Tintim.

Ele era mais ou menos assim.

Meu avô carregava um nome de peso e um sobrenome ainda maior. Conhecido na cidade. Professor de tantos. Detalhista. Cheio de amigos. Às vezes, um pouco rude. Mas muitas vezes mais, de um coração genuinamente bondoso e forte. Tão forte que não queria parar de bater. Tão forte que, apesar de ter passado por poucas e boas, batia intensamente pela família, pela dona Lourdes e principalmente pela vida.

Meu avô fumava, mas conseguiu largar a mão do cigarro. Tinha um olhar preciso em tudo que fazia, mas perdeu um dos olhos. E mesmo assim, sentia prazer nas coisas simples da vida. Na ida à igreja. Na espera de uma fila no banco. No supermercado. Varrendo as folhas da calçada. Na conversa jogada fora com um conhecido. No vinho doce da cidade. No macarrão da vó. Nas partidas de futebol que passavam na TV.

Isso sim era um vício, ou quem sabe um ritual? De fato, se estendeu para o meu pai. E quando eu consegui meu primeiro emprego, num time de futebol, era para os dois que eu queria contar. Eram os dois que eu queria orgulhar.

Do Vô Waldomiro eu herdei o cabelo. Escuro e liso. Herdei também as sobrancelhas. Escuras e grossas. Herdei até umas manias e um pouco desse temperamento indomável.
Todo domingo batíamos cartão na casa da colônia. Avô por parte de pai é assim mesmo.

Mas ele se faz presente de maneiras singulares na minha vida. Quantas vezes, ao falar meu nome na hora de um cadastro, a pergunta era sempre a mesma: você é parente do professor Bulhões? Como eu gostava de ouvir isso. A realidade é que falar com o Vô Bulhões era bom demais. Sempre uma história. E de hoje em diante, apenas e para sempre na minha memória.

Com tanto amor e tanta saudade,
da sua neta Sarah.”