Remédio contra menopausa não hormonal é aprovado pela ANVISA
A Anvisa aprovou na última segunda-feira (22) o registro do Veoza (fezolinetanto), o primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para o tratamento de sintomas vasomotores moderados a intensos associados à menopausa — as populares ondas de calor (fogachos) e suores noturnos.
Desenvolvido pela farmacêutica japonesa Astellas Farma, o Veoza já era comercializado nos Estados Unidos (como Veozah, aprovado em maio de 2023) e na Europa (aprovado em dezembro de 2023). O Brasil é o primeiro país da América Latina a liberar o fármaco.
Dados epidemiológicos apontam que 36,2% das brasileiras entre 40 e 65 anos sofrem com sintomas vasomotores intensos — índice mais que o dobro da média global de 15,6%. Estima-se que cerca de 16 milhões de mulheres no país estejam no climatério e poderiam se beneficiar da nova opção terapêutica.
Como age no cérebro
O mecanismo é preciso: ele bloqueia a ligação da neurocinina B nos neurônios KNDy (kisspeptina/neurocinina B/dinorfina), modulando a atividade neuronal e restaurando o equilíbrio térmico que foi interrompido pela queda de estrogênio durante o climatério.
“É uma terapia que age na raiz do problema, não apenas nos sintomas”, explicam especialistas ouvidos pela reportagem. Por não conter hormônios, o Veoza é especialmente indicado para mulheres que possuem contraindicações à TRH, como histórico de câncer de mama, trombose ou doenças cardiovasculares.
O que dizem os estudos clínicos
A aprovação brasileira foi baseada em três estudos clínicos de fase 3 que envolveram mais de 3 mil pacientes com idades entre 40 e 65 anos.
- Redução significativa na frequência e intensidade dos fogachos já nas primeiras semanas de tratamento
- Melhora substancial na qualidade do sono, com redução dos despertares noturnos causados por suores
- Manutenção dos efeitos ao longo do tratamento de 52 semanas
- Perfil de segurança considerado aceitável para uso crônico
📋 Detalhes da bula
💊 Posologia e administração
- Dosagem: 45 mg, via oral, uma vez ao dia
- Pode ser tomado com ou sem alimentos, com líquido
- Os comprimidos devem ser engolidos inteiros (não mastigar ou partir)
- Recomenda-se tomar sempre no mesmo horário todos os dias
⚠️ Contraindicações
- Mulheres com doença hepática grave (cirrose — Child-Pugh C)
- Insuficiência renal terminal
- Pacientes com ALT/AST ≥ 2x o limite superior da normalidade no início do tratamento
- Gravidez e amamentação: Não deve ser utilizado. Mulheres em idade fértil devem usar método contraceptivo eficaz durante o tratamento e por pelo menos 7 dias após a última dose
🩺 Precauções importantes
- Monitoramento hepático obrigatório: A bula exige exames de sangue (ALT, AST e bilirrubina) antes de iniciar o tratamento, mensalmente nos primeiros 3 meses e depois conforme avaliação médica
- O FDA (órgão regulador dos EUA) emitiu em 2026 um alerta sobre risco raro, mas grave, de lesão hepática — o que reforça a necessidade de monitoramento regular
- Uso em idosas (≥ 65 anos): experiência clínica limitada
- Insuficiência hepática leve a moderada: maior exposição sistêmica observada; ajuste de dose a critério médico
⚡ Efeitos colaterais mais comuns (incidência ≥ 2% e maior que placebo)
| Efeito | Incidência |
|---|---|
| Dor de cabeça | ~7% |
| Fadiga | ~3% |
| Insônia | ~2% |
| Diarreia | ~2% |
| Dor abdominal | ~2% |
| Aumento de enzimas hepáticas (ALT/AST) | ~2% |
| Náusea | ~2% |
| Dor nas costas | ~2% |
🔬 Interações medicamentosas
- Evitar uso concomitante com contraceptivos hormonais ou terapia de reposição hormonal (podem aumentar a exposição ao fezolinetanto)
- Uso com rifampicina e outros indutores fortes de enzimas hepáticas pode reduzir a eficácia
- Uso com cetoconazol e inibidores fortes pode aumentar os níveis do fármaco
📦 Apresentação
- Comprimidos revestidos de 45 mg em embalagens com 30 unidades
- Conservar em temperatura ambiente (até 30°C)
Preço e disponibilidade
O medicamento ainda não tem preço definido no Brasil — a aprovação do registro pela Anvisa é a etapa inicial. Cabe agora à Astellas Farma definir a comercialização e o valor. Para referência, nos Estados Unidos o Veozah custa cerca de US$ 550 mensais (aproximadamente R$ 3.000) sem cobertura de seguro.
Especialistas estimam que o medicamento deve chegar ao mercado brasileiro nos próximos meses, inicialmente de forma privada, com possibilidade de incorporação ao SUS a depender de avaliação da Conitec.
Um marco para a saúde feminina
Ginecologistas e endocrinologistas classificam a aprovação como um avanço histórico para a saúde da mulher no Brasil. A menopausa afeta diretamente a qualidade de vida, a produtividade e o bem-estar emocional, e por décadas as opções terapêuticas se limitaram basicamente à reposição hormonal — que muitas mulheres não podiam usar.



