Jundiaiense pede ajudar para voltar ao Brasil

A advogada Ana Leticia Pessanha Prado Bortolini, moradora na Ponte São João, em Jundiaí, está vivendo um drama. Ela está no Peru desde o dia 12 de março, onde foi participar de uma prova de trekking. No dia 14, foi de Lima para Cusco, onde se encontra até o momento. No dia 16, foi informada sobre o decreto presidencial que determinou o fechamento dos aeroportos e fronteiras do país devido ao Coronavírus.

“Foi um desespero total de todos por aqui e ainda estamos todos agoniados. Muitos brasileiros e estrangeiros, em geral, sem hospedagem, alimentação e desprovidos de condições de suprir suas necessidades básicas. Cusco é muito frio à noite, pessoas dormiram na porta de aeroportos, pois fecharam até mesmo o local, impedindo o ingresso de todos. Eu estou em um hostel que permitiu a hospedagem, mas não há previsão de até quando isso será possível. A situação é agoniante, pois não temos qualquer previsão de nada”, relata Ana Letícia.

Segundo ela, em Cusco não se pode andar pelas ruas. Todos os locais estão desertos. Está terminantemente proibido sair, sob pena de multa para a pessoa, e, em caso de estrangeiros com hospedagem, multa também à hospedagem. “Ontem saí para tentar comprar alimentos e produtos de higiene, fui parada três vezes por policiais que energicamente diziam para eu retornar ao hostel senão poderia até mesmo ser presa. A situação está complicada, beirando o desespero”, diz.

Ana Leticia viajou sozinha, e no hostel onde está hospedada, há mais 8 brasileiros. Todos na mesma situação. “No primeiro dia, quando ainda não havia o ‘toque de recolher’, nos dirigimos a um endereço de um consulado honorário aqui de Cusco, mas ninguém nos atendeu. Formaram-se, entre os brasileiros que estão no Peru, grupos de WhatsApp com centenas de pessoas na mesma situação. Em Lima, as portas da embaixada brasileira estão fechadas. No primeiro dia, brasileiros se deslocaram até o local, fizeram uma mobilização na frente da embaixada. Não os atenderam”, conta.

 

Abandono

A advogada relata o sentimento de desamparo que toma conta dos brasileiros retidos no Peru. De acordo com ela, apesar de a embaixada e o governo, em geral, dizer que estão empreendendo esforços no sentido de resolver a situação, não há uma mensagem oficial, não há posicionamento ou qualquer auxílio por parte do Brasil. “O sentimento é de total desamparo. Enquanto os outros países buscam seus cidadãos o Brasil vida as costas para os brasileiros. O presidente do Peru já liberou para que os estrangeiros voltem ao país de origem. Os EUA, o Canadá, já estão repatriando seus cidadãos desde o primeiro dia da liberação do presidente do Peru. A Argentina está enviando 10 aviões para buscar seus cidadãos. Hoje, Israel também levará os seus de volta. Já enviamos e-mails, fizemos ligações, já fomos na porta da embaixada, já procuramos consulados, nada. Não estamos tendo amparo algum do governo brasileiro”, lamenta.

Todos estão completamente perdidos, angustiados e muitos desesperados pela ausência de previsão, pela falta de amparo do governo brasileiro e pela inexistência de informações efetivas. Por isso, ela busca amparo na família e nos amigos. “Minha família, meu namorado, meus amigos estão sendo essenciais para manter minhas esperanças por aqui; por que o abalo psicológico é forte. Sem as mensagens deles, sem o suporte emocional afetivo deles não sei o que seria. Estão muito preocupados e angustiados com a minha situação, e revoltados com a ausência de posicionamento, de suporte, de ajuda do governo brasileiro.

 

Bolsonaro

E ela não poupou nem o presidente Jair Bolsonaro. “Em todos os grupos (estamos falando de mais de 3 mil brasileiros que estão no Peru, sendo centenas em grupos de WhatsApp) o desgosto para com a omissão, a negligência do governo brasileiro, em especial com o presidente Bolsonaro, é unânime, já que o mesmo sequer foi capaz de participar da conferência havida entre os presidentes dos países sul-americanos que houve no primeiro dia do decreto peruano, e até o presente momento não deu uma palavra efetiva sequer sobre repatriar os brasileiros que estão no Peru. Estou preocupada com a negligência do nosso presidente, com relação aos brasileiros no Peru e mais ainda com relação a não adoção de medidas emergenciais para o Brasil, fazendo com que cada estado, cidade ou entidades privadas adotem medidas que entendem pertinentes”, reclama.

Sua preocupação também é com o trabalho, já que é advogada e os prazos de processos digitais não foram suspensos, havendo o risco de potenciais prejuízos. “A solução para o nosso caso, sem dúvida, é que o governo brasileiro faça como fizeram os demais países e procedam ao repatriamento. Já que nosso querido presidente Bolsonaro admira tanto os EUA, que faça igual eles fizeram e mobilize aviões para vir nos buscar. Não adianta apenas pensar na economia do país se seus cidadãos estão desamparados em situações emergenciais”, arremata Ana Letícia.