OPINIÃO: A marcha fúnebre do comércio

Antônio de Souza Neto (*)

Nem mesmo Raul Seixas poderia supor, ao compor uma de suas músicas mais conhecidas (“O Dia Em Que a Terra Parou”), que situação semelhante seria provocada pela pandemia do novo coronavírus, com o isolamento social adotado em praticamente todos os países, incluindo o nosso.

No estado de São Paulo, a quarentena começou em 20 de março e já foi prorrogada duas vezes, e agora será “inteligente”, com a abertura progressiva da economia a partir de 1º de junho e pelos próximos meses.

Embora entendamos a importância de se conter o avanço da Covid-19, também sabemos que a situação econômica, com o fechamento de estabelecimentos comerciais, chegou a um nível insustentável, diante do grande endividamento das empresas e milhares de demissões realizadas.

Microcosmo dentro da gigantesca força da economia paulistana, a Galeria do Rock exemplifica as agruras que os empresários brasileiros estão vivendo. Durante os últimos anos, vínhamos perdendo postos de trabalho locais, entre lojas e condomínio.

Durante este isolamento, o clima geral tem sido de ansiedade e depressão, com algumas pessoas inclusive já me confidenciando pensamentos de suicídio. Eu converso com elas, tento demovê-las desta terrível ideia, mas a realidade é cruel, e os números se agravarão, se nada for feito.

Construída há mais de 25 anos, a bela história da nossa Galeria do Rock está se desfazendo, mas, com certeza iremos reconstruí-la, e nunca iremos perder a esperança.

Sua trajetória sempre foi cheia de alegria, irreverência, prosperidade, geração de emprego e renda, regada a atitudes fortes, que nos tornaram reconhecidos em todo o país como referência política, sociológica, antropológica e cultural.

As duras medidas tomadas pelos governos estadual e municipal quebraram essa saudável rede de negócios familiares, muitos dos quais há tempos administrados já pela segunda geração, quando não a terceira.

O isolamento social levou muitos empresários ao desespero, tendo de afogar-se em dívidas e dispensando funcionários.

Qualquer pessoa que entenda um pouco sobre as características da nossa sociedade compreende que o poder público não pode tomar decisões levando em consideração tão-somente uma roda da engrenagem, mas sim todos os aspectos da complexa máquina chamada sociedade, envolvendo tecnologia, comportamento, economia, costumes e cultura, dentre vários outros fatores.

As medidas unilaterais tomadas pelos governos estaduais e municipais estão levando os lojistas da Galeria do Rock ao desespero. As contas fixas do negócio e as duplicatas com os fornecedores estão vencendo e não há dinheiro suficiente para saldá-las.

Antes da quarentena, o complexo faturava em torno de R$ 9 milhões por mês. Agora, praticamente nada, já que as poucas vendas on-line realizadas por alguns lojistas em breve deixarão de existir, porque a lentidão dos Correios está desestimulando os compradores.

Para manter as operações, a saída tem sido recorrer a empréstimos bancários, mas poucos conseguem. Além de as instituições financeiras cobrarem juros proibitivos, estão exigindo uma porção de garantias. Quem não aceita isso, tem o crédito negado.

Quando esta pandemia passar – e isto vai acontecer –, certamente nós, empresários, teremos de mudar algumas condutas, inclusive criando uma forma de nos tornarmos ainda mais fortes e unidos.

A ideia é evitar que, futuramente, ao enfrentarmos situações como esta trazida pela Covid-19, fiquemos novamente à mercê não apenas de um vírus, mas também da insensibilidade de governantes que não entendem o tamanho do prejuízo social e econômico gerado pelo fechamento compulsório do comércio.

Mas, para que haja a mobilização efetiva do setor, precisamos fortalecer nossas entidades realmente representativas, caso do Instituto Renova de Cultura Empresarial, criado sem qualquer conotação político-partidária, verdadeiro pré-requisito à realização de um trabalho legítimo, a ser ouvido atentamente por todos os níveis da administração pública brasileira.

(*) Antônio de Souza Neto, jornalista e psicólogo, é vice-presidente de eventos do Instituto Renova de Cultura Empresarial, presidente do Instituto Cultural Galeria do Rock, síndico-administrador da Galeria do Rock.