Jundiaí emite 1 milhão de gases-estufa por ano

Uma das cidades mais desenvolvidas do país, Jundiaí (SP) emitiu 1 milhão de toneladas de gases-estufa em 2018. Ou mais exatamente 990.522 toneladas equivalentes a dióxido de carbono (tonCO2e), na metodologia do Acordo de Paris.

Os dados são do sistema estatístico de emissões SEEG, coordenado pelo Observatório do Clima, em levantamento do cientista social pela UNICAMP e jornalista José Arnaldo de Oliveira na plataforma SEEG Municípios.

“Há cada vez mais indicações sobre a relação entre o surgimento de epidemias e as mudanças climáticas provocadas pela espécie humana. As cidades ocupam um papel-chave”, afirma.

Dez anos antes, em 2008, o número era quase o mesmo: 1,014 milhão de tonCO2e.

Os números, pelo perfil urbano e industrial, são diferentes da média nacional na maioria nos campos definidos de energia, resíduos, mudança de uso da terra e agropecuária.

A energia, principalmente para veículos e eletricidade, representou 74% em 2018 (reduzida a 731.318 toneladas contra 811.841 em 2008) diante de 21% na média nacional.

Os resíduos, pela produção ou consumo, foram 24% do total (aumentados a 232.802 toneladas contra 179.736 em 2008), diante de 5% na média nacional.

A mudança de uso da terra, por outro lado, foi 2% (15.977 toneladas contra 44.731 no distante 2000) diante de 40% na média nacional, provocada por municípios com enormes áreas de desmatamento.

E a agropecuária, alvo no turismo e cultura locais simbolizado pela uva, tem impacto zero (10.425 contra 7.230 toneladas em 2008), diante de 30% na média nacional puxada pela pecuária em municípios de vários estados.

No ranking brasileiro, Jundiaí ocupa a 345ª posição no ranking de 5.545 municípios, emitindo mais gases-estufa que 5,2 mil outros. A categoria reúne dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), entre outros.

Mas considerando apenas o Estado de São Paulo, Jundiaí ocupa o 19º posto em emissões, atrás de municípios como a capital paulista e outros como São José dos Campos, Campinas, Sorocaba, Piracicaba ou Ribeirão Preto.

AÇÕES – A energia, principal causa de emissão local, teve em tempos recentes um estudo da empresa Siemens incluindo o aumento de luz natural em construções públicas – parte do método chamado City Tools, disponibilizado para a gestão municipal.

Na mobilidade ativa, outro aspecto da energia, testes foram aplicados para pedestres com o Mobilidade Verde e ciclistas com o Pedala Jundiaí de forma limitada, mas com promessas de ampliação – e com o atual conceito de cidade para crianças (Urban 95), em parceria com o Instituto Alana.

Os resíduos são outro setor pesado em emissões. Segundo os indicadores do Observatório Municipal, do governo local, em 2020 a coleta urbana domiciliar atingiu 117.767 toneladas, mas apenas 8.302 em reciclados (sem computar a rede de catadores informais).

Um dos campos mais avançados nesse tema pelo lado da produção é o debate da economia circular, liderado pelo Ciesp – Centro das Indústrias do Estado – e estimulado pela recente onda de investimentos ESG (de governança ambiental, social e corporativa, na sigla em inglês). A renda média da cidade torna o consumo consciente um setor também central nesse campo.

A mudança de uso da terra, embora proporcionalmente menor que os anteriores, é o mais evidente em disputa. A cidade teve três versões do seu Plano Diretor em apenas uma década (2012, 2016, 2019), sendo a mais recente posterior ao cálculo de emissões de 2018.

Segundo os indicadores do Observatório Municipal, a proteção parcial da Serra do Japi garante um percentual de 37% de área verde total na cidade – e de 21% na área urbana. A mesma fonte mostra que a remoção de árvores, nessa mesma área urbana, passou de 987 em 2018 para 6.449 em 2020. Não há os dados do plantio.

Falta, entretanto, uma política municipal de biodiversidade que qualifique essas áreas verdes por presença de espécies nativas em todo o município, atendidas por convênio em entidades conveniadas como Mata Ciliar.

Na agropecuária, tão importante para paisagem e clima, tem um programa embrionário de pagamento de serviços ambientais (PSA) testado como piloto da The Nature Conservancy e efetivado como programa de governo local.

“Aliar biodiversidade, clima e bem estar social e econômico é uma boa meta, pelas sinergias entre esses vários campos. E para uma versão avançada de um plano municipal de mudanças climáticas na APA Jundiaí – e sua emissão estimada de 1 milhão de toneladas anuais de gases estufa”, afirma.

A cidade também é objeto de pesquisas sobre o tema, como no conjunto de municípios em análise no Núcleo de Pesquisas Ambientais (Nepam) da Universidade Estadual de Campinas. E os resultados das conferências mundiais do clima, prevista para novembro, ou da diversidade biológica, para outubro, podem estimular o avanço de políticas públicas, inclusive sociais e econômicas.

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