Programa de podcast revive a figura mítica de Maria dos Pacotes

Para quem não conhece a figura mística de Maria dos Pacotes pode conhece-la através de uma poesia sonora lançada em podcast nas plataformas de streaming (Deezer, Google e Spotfy), chamada “Maria e os Pacotes”.

Produzido pela Rádio Trombeta, o episódio é uma dramaturgia de Marcos Cesar Duarte, na voz de José Renato Forner, que também cuidou da edição e pesquisa sonora do programa.

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A dramaturgia foi inspirada em histórias que habitavam o imaginário popular. “Em uma dessas histórias dizia que ela foi abandonada no altar. Ficamos mais focados na lenda que em sua biografia. Falamos da Maria dos Pacotes, e não da pessoa física Carlota Edith Barbieri”, explica o ator e diretor, José Renato Forner, 40 anos.

“Maria e os Pacotes” é originalmente uma peça de teatro (escrita por Marcos Cesar Duarte, dirigida por Mário Rebouças e com atuação de Forner) que estreou no Festival de Monólogos de Jundiaí em 2006. “A gente queria falar sobre os pacotes que carregamos durante a vida e encontramos na Maria dos Pacotes, a figura lendária para falar sobre esses abandonos”, lembra Forner.

Na época que a peça foi estreada, o ator Forner teve um encontro com Maria dos Pacotes em uma pensão no Centro de Jundiaí e talvez ele tenha feito uma das últimas fotos dela em vida. 

Maria dos Pacotes. (Foto: José Renato Forner)
José Renato Forner capturou Maria dos Pacotes em uma pensão no Centro Jundiaí

A peça “Maria e os Pacotes” venceu o Festival de Monólogos de Jundiaí naquele ano. “Com a apresentação, percebemos o quanto essa personagem habita o imaginário das pessoas de Jundiaí. E, em datas espaçadas, sempre voltamos à essa peça”, destaca.

O episódio em versão de podcast tem o mesmo olhar dado a Maria dos Pacotes na peça de teatro, ou seja, o tratamento foi dado à figura mítica dela, e não da pessoa física.

“Para o podcast, o texto é o mesmo (que eu considero uma poesia cênica!), mas a interpretação do texto teve o tom todo repensado para construir as imagens apenas pela voz e interferências sonoras, onde utilizo parte da trilha criada para a peça em 2006 pelo Dantas Rampin”, explica Forner.

Produção do podcast

Durante a pandemia, a necessidade da expressão fez com que José Renato Forner e Marcos César Duarte buscassem novos caminhos para o palco que ficou inacessível e criaram o podcast “Na Coxia”, com apoio do Sesc Jundiaí, onde conversavam com artistas da cidade e de várias partes do Brasil, sobre obras teatrais. O podcast teve nove episódios e totalizou mais de 6 mil audições. “Conversamos desde tragédias gregas até Ariano Suassuna”, diz Forner.

As gravações ocorrem na casa de Forner, que criou um home estúdio com pouquíssimos recursos. Basicamente, um celular e um programa de edição, além de muita pesquisa para aprender, pois o ator sempre foi do palco e salas de ensaio e nunca havia se aventurado com esse tipo de tecnologia. Já as entrevistas ocorreram online.

Com a possibilidade de investigar mais essa linguagem, os artista de teatro sairam do campo das entrevistas e focaram nas pesquisas de peças teatrais para serem ouvidas. “Uma espécie de dramaturgia sonora, que remete às rádio novelas, mas com temas e sonoridades contemporâneos”, explica Forner.

“Maria e os Pacotes” foi o último trabalho criado pela Rádio Trombeta. A dupla está feliz com o resultado do projeto e em breve pretendem contar com a participação de outros artistas da cidade em novos episódios.

A Rádio Trombeta é trabalho independente, sem patrocínios no momento.

Rádio Trombeta. (Foto: Divulgação)
José Renato Forner e Marcos César Duarte responsáveis pela Rádio Trombeta. (Foto: Divulgação)

Sinopse da dramaturgia

Maria, abandonada no altar, passa a viver nas ruas juntando seus pedaços. E guarda cada pedaço em pacotes que ela confecciona e vai agregando ao corpo, não como um adereço ou uma veste. Mas como parte e extensões do corpo e de sua memória.

Pedinte, Maria esbraveja contra quem lhe ameaça e resmunga pelas esquinas suas memórias e seu amor. O projeto de uma vida que não se concretizou passa a ser seu maior fantasma e sua maior iluminação.

Personagem das ruas, Maria não se importa com o mundo, se vê e se reconhece apenas em suas memórias e lembranças de uma felicidade que não pôde se tornar real, mas que em delírios emotivos abriga e consola seu maltratado corpo, sua louca e teimosa existência.