quarta-feira, 3, junho, 2026, 13:41
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Polícia Civil de Jundiaí descobre que mulher de 34 anos se passou por criança ao denunciar abuso sexual

No dia 13 de agosto guardas municipais de Jundiaí resgataram das ruas uma jovem que dizia ter 12 anos e fugido de uma rede de prostituição de Fortaleza (CE). Imediatamente a Delegacia de Defesa da Mulher passou a oferecer atendimento para “Ana Clara”, de 12 anos de idade. Como estava sem documentos, foram realizadas investigações para descobrir a verdadeira identidade e encontrar os pais. Mas tudo era mentira da autora, sendo que as policiais descobriram que a mulher tem 34 anos e fantasiou tudo, tendo praticado o mesmo golpe em várias cidades no País, porque as pessoas acabavam ajudando-a com doações e acolhimento.

A Delegacia da Mulher de Jundiaí notificou a Polícia do Ceará com base nas denúncias da suposta criança. Ela contava que era mantida em cárcere privado por pessoas que diziam serem seus pais e obrigada a manter relação sexual com diversos clientes desde sua infância e que, para que suportasse tais práticas, era constantemente submetida a injeções de hormônio, mencionando inclusive envolvimento de políticos e autoridades.

Consta do relato que as vítimas, quando cresciam, eram descartadas em forma de rituais de magia negra, e muitas vezes bebês eram sacrificados nesses rituais.

A “adolescente” informou ainda que um caminhoneiro a ajudou fugir de Fortaleza e a deixou em Jundiaí, onde encontrou com um desconhecido e com ele fez “programa” em troca de local para dormir.

Investigações

Diante do exposto, remeteu-se cópia do boletim de ocorrência para a Delegacia de Fortaleza para apuração dos fatos ocorridos naquele município, enquanto na DDM de Jundiaí foram realizadas diligências a fim de apurar suposto crime de estupro de vulnerável.

A equipe de investigação da Delegacia de Defesa da Mulher passou a realizar as investigações, deslocando-se ao Hospital Universitário, onde teve o primeiro contato com “Ana Clara”, verificando que ela possuía um comportamento infantilizado, aparência depressiva e não queria conversar.

A equipe verificou ainda que a “adolescente’ tinha um porte físico grande para uma pessoa de 12 anos de idade e isso chamou a atenção, bem como chamou atenção o sotaque que não parecia de alguém natural de Fortaleza para quem tinha saído de lá pela primeira vez.

A delegada Aline Nery Bonchristiani disse que a equipe constatou que a ‘adolescente” tinha várias cicatrizes, porém ela não deixou que fossem realizados quaisquer exames, dizendo ter pânico de agulhas devido aos rituais satânicos.

Prosseguindo com a investigação, de posse da qualificação de “Ana Clara”, foram realizadas pesquisas nos sistemas policiais, inclusive em banco nacional de dados. Porém, a equipe não localizou qualquer pessoa relacionada com o nome que ela passou.

Isso levantou suspeita de que tais dados fossem falsos.

Atendimento

Enquanto as investigações prosseguiam, a “adolescente” foi acolhida, inicialmente pela Casa Transitória de Jundiaí, onde ficou por pouco tempo até que pediu para sair, dizendo que as crianças de lá a faziam lembrar-se das crianças de Fortaleza, e por essa razão tinha pensamentos suicidas. O fato foi relatado ao juiz da Vara da Infância e Juventude, Jefferson Barbin Torelli, que autorizou a transferência.

A “adolescente” então foi transferida para o CAPS Infanto-juvenil, onde passou a ter acompanhamento de perto e receber cuidados específicos, pois se comportava de uma maneira muito introspectiva e se negava a fazer exames médicos.

Em 19 de agosto de 2022 a equipe da DDM, chefiada pela investigadora Lilian Pichi, compareceu no CAPS e coletou as impressões digitais de “Ana Clara” para proceder à sua identificação através do Instituto de Identificação (IIRGD). Porém, a ação restou infrutífera, não constando sua identidade no banco de dados do Estado de São Paulo.

Exames médicos

A “adolescente” passou por perícia médica no Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí, onde constatou conjunção carnal não recente e cicatrizes pelo corpo.

Em determinado momento “Ana Clara” informou que em decorrência dos rituais satânicos possuía muitas agulhas pelo corpo, motivo pelo qual a equipe de investigação e o CAPS a levaram ao Hospital Universitário para realização de Raio X, o que resultou na confirmação de seu relato, uma vez que foram identificadas inúmeras agulhas por seu corpo.

Em seguida, de posse do Raio X, uma médica elaborou laudo constatando que a idade óssea da “adolescente” era superior a 18 anos, segundo o método Greulich-Pyle.

Matéria de jornal

Deste modo, e devido a algumas incongruências apresentadas por “Ana Clara”, ao tipo de fala que ela apresentava e o raciocínio incompatível com uma pessoa de 12 anos de idade, que teria vivido uma vida inteira em cárcere privado, a Delegacia passou a desconfiar de seus relatos e, em busca na internet, localizou-se uma matéria jornalística de 12 anos atrás, onde havia narrativa semelhante de uma adolescente de 13 anos de idade que sofria as mesmas violências, que havia fugido de Fortaleza/CE para Natal/RN, onde registrou ocorrência.

A delegada Aline orientou a equipe de investigadoras da DDM a entrar em contato com o Hospital Maria Alice Fernandes, na cidade de Natal/RN, onde a adolescente da matéria jornalística passou por atendimento. Houve relato de cirurgias para retirada de agulhas do corpo, sendo que o prontuário foi fornecido à DDM, após encaminhamento de ofício.

O prontuário médico dessa suposta vítima, com fotos da paciente, serviu para comprovar que as duas são a mesma pessoa. Que Ana Clara não tem 12 anos.

Identificação

Graças às trocas de informações entre as polícias de cada estado, a Delegacia de Defesa da Mulher descobriu a verdadeira identidade da autora. Ela é A. S. O., nascida em 05/05/1988, ou seja, uma mulher de 34 anos de idade.

Em seguida a equipe conversou com A.S.O. e expôs que já tinha conhecimento de sua verdadeira identidade, ao passo que ela confessou que tinha o costume de fazer isso, porque, há doze anos, quando o fez pela primeira vez, as pessoas se comoveram e a ajudaram com comida, abrigo, roupas, alimentação, remédios, dinheiro.

Comentou que tudo começou quando foi abusada sexualmente por seu pai, na infância, e sua genitora não acreditou.

Contou que as agulhas foram inseridas em seu corpo por ela própria, e que faz isso porque a dor física ameniza suas angústias.

Relatou ainda que já passou pelo Estado do Rio de Janeiro, do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, entre outros, sempre trocando de nome.

A delegada Aline agradeceu a Polícia Civil de Natal/RN e Fortaleza/CE, que muito contribuíram para as investigações e, inclusive confirmaram a identidade de A.S.O.

Diante de todos os fatos, A. S. O. foi indiciada pelo crime de falsidade ideológica, uma vez que fez inserir em documentos públicos declarações falsas, com o fim de criar obrigação das instituições públicas, e o inquérito policial, assim que finalizado, será remetido ao Ministério Público e ao Poder Judiciário para as providências pertinentes.

Trabalharam nessa ocorrência a chefe dos investigadores da Delegacia da Mulher de Jundiaí, Lilian Picchi e os policiais Caio e Andrea, com a escrivã chefe Tatiane e apoio da delegada Aline e do delegado titular Marcel Fehr.

 

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