Jundiaí se despede do restaurador Sérgio José Ribeiro
Jundiaí perdeu um dos principais guardiões de sua memória histórica. Sergio José Ribeiro, de 61 anos, restaurador técnico com quase quatro décadas de experiência, faleceu deixando um legado inestimável na preservação do patrimônio documental da cidade.
Morador do bairro Anhangabaú, Sergio era casado e dedicou sua carreira à restauração de documentos e obras de arte. Seu trabalho mais recente e significativo para a cidade foi a recuperação de plantas históricas das primeiras redes de água e esgoto da DAE (Departamento de Água e Esgoto) de Jundiaí, construídas no século XIX.
Guardião da memória histórica
Entre os trabalhos mais importantes de Sergio está a restauração da “Planta geral da cidade de Jundiahy – rede dos encanamentos e esgoto”, datada de 15 de novembro de 1893, quando a cidade ainda era grafada como “Jundiahy”.
O documento, considerado o mapa mais antigo conhecido pela DAE, exigiu cinco meses de trabalho minucioso.
“Foi um dos trabalhos mais difíceis que tivemos e, ao mesmo tempo, fascinante. Por um mês o mapa ficou em cima de uma mesa, para que saíssem as ondulações e os fungos, sob exposição ao ozônio e infravermelho”, explicou Sergio em entrevista, detalhando o processo de restauração que incluiu remoção de fungos, esterilização e até a retirada de durex com bisturi cirúrgico.
Sergio trabalhava no estúdio da restauradora Elisabetta Battioli há quase 40 anos, local por onde já passaram obras de grandes mestres como Portinari, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. Sua expertise e dedicação foram fundamentais para a preservação de documentos históricos que integrarão o futuro Museu da Água de Jundiaí.
Homenagem do Museu de Jundiaí
O professor Maurício Ferreira, do Museu de Jundiaí, prestou uma emocionante homenagem ao restaurador: “Esposa, família e amigos recebam meus mais profundos sentimentos pela perda. Sérgio foi um guardião da memória, da beleza e da história, devolveu vida a tantas expressões artísticas, preservando aquilo que o tempo tentou apagar. Seu legado permanecerá nas cores, nas formas e nas emoções que ajudou a ressuscitar com tanto cuidado e respeito. Que o amor que compartilharam e a admiração que tantos nutriam por ele lhes tragam algum consolo neste momento tão difícil.”
Trabalho que transcende o tempo
O mapa restaurado por Sergio revela detalhes fascinantes da Jundiaí do século XIX, com demarcações do Centro, Anhangabaú e Vila Arens, além da “estrada geral para Itatiba” e o rio Guapeva. O documento traz referências técnicas dos encanamentos, hidrantes, válvulas e distritos de esgoto, sendo uma peça fundamental para compreender o desenvolvimento urbano da cidade.
Eliana Yuda, chefe da Seção de Geoprocessamento da DAE, destacou a importância do trabalho de Sergio: “Este é o mapa mais antigo que conheço na DAE. Como era muito grande, não estava escaneado, o que permitiu que a cópia fosse mais fiel.”
O ex-superintendente da DAE, Walter Costa e Silva, havia autorizado o levantamento de itens mais antigos da companhia, para a construção de um Museu da Água na cidade. Esse trabalho com os mapas é um dos passos para a preservação da história.
Despedida
O velório de Sergio José Ribeiro está sendo realizado no Velório Municipal Nossa Senhora do Montenegro, e o sepultamento acontece hoje (27) às 11h no Cemitério Municipal Nossa Senhora do Montenegro.
Seu trabalho continuará vivo nas obras que restaurou e na memória da cidade que tanto amou preservar.
O mapa que ele ajudou a recuperar permanecerá como testemunho de sua dedicação, integrando o acervo do futuro Museu da Água e o Arquivo Histórico da Prefeitura de Jundiaí, disponível para as futuras gerações conhecerem a história de sua cidade.


