quinta-feira, 4, junho, 2026, 00:04
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Morre em Jundiaí, aos 96 anos, Hilda Latance, pioneira do sindicalismo no País

Jundiaí perdeu neste final de semana uma de suas mais importantes lideranças sindicais. Hilda Latance, aos 96 anos, faleceu deixando um legado de luta pelos direitos trabalhistas que marcou a história da cidade. O velório está sendo realizado neste domingo (9) no Centro de Jundiaí, com sepultamento marcado para as 13h no Cemitério Nossa Senhora do Desterro.

A primeira mulher sindicalista

Natural de Jaú, Hilda Latance foi uma figura pioneira no movimento sindical jundiaiense e do País.

Operária da Fábrica de Tecelagem Japy, ela não apenas testemunhou, mas protagonizou as lutas trabalhistas em uma era marcada pela forte industrialização têxtil em Jundiaí.

Foi a primeira mulher a liderar um sindicato de classe na cidade, tornando-se presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Fiação e Tecelagem em Geral, de Malharias e Meias de Jundiaí.

A fundação do sindicato ocorreu em resposta às condições precárias enfrentadas pelos trabalhadores, especialmente após a Fábrica Japy passar para o controle do Grupo JJ Abdalla na década de 1950. Salários baixos, atrasos constantes nos pagamentos e desrespeito aos direitos trabalhistas motivaram Hilda a organizar e liderar o movimento que resultou na criação da entidade sindical da qual fazia parte até os dias atuais.

Uma líder incansável

Conhecida por sua coragem e determinação, Hilda Latance não tinha medo de enfrentar patrões.

Ia pessoalmente às fábricas de tecelagem para defender os interesses dos trabalhadores e, quando necessário, levava as causas à Justiça do Trabalho, onde atuou também como juíza classista.

Apesar de sua firmeza, sempre buscou a negociação como primeiro caminho para resolver conflitos trabalhistas. Chegava a ser “explosiva” quando se tratava de desrespeito aos trabalhadores.

Em uma época em que a indústria têxtil empregava milhares de famílias em Jundiaí, Hilda se tornou uma figura representativa e respeitada não apenas na cidade, mas em todo o Interior paulista. Sua liderança transformou-a em referência sindical na região.

Ela fez parte da história de Jundiaí, do sindicalismo e era muito querida pela família.

Reconhecimento e cidadania

Em 1984, em reconhecimento à sua importância para a comunidade, Hilda Latance recebeu o título de Cidadã Jundiaiense da Câmara Municipal.

Apesar de nascida em Jaú, ela construiu sua vida e sua luta em Jundiaí, permanecendo como uma das presidentes sindicais mais longevas do País.

Contexto histórico

A história de Hilda está entrelaçada com a industrialização de Jundiaí.

A historiadora Regina Kalman dá detalhes sobre como tudo começou em um artigo.

A Fábrica de Tecelagem Japy foi fundada pelo então senador Antônio de Lacerda Franco, fazendeiro, produtor de café e banqueiro. A construção teve início em 1912, próximo à Estação Ferroviária, e foi inaugurada em 18 de novembro de 1914. O prédio, de estilo inglês, era uma construção imponente que se tornou símbolo da fase industrial da cidade.

Durante 40 anos, a empresa enfrentou dificuldades econômicas, incluindo os impactos das guerras mundiais e da ditadura de Getúlio Vargas. Na década de 1950, quando passou para o Grupo JJ Abdalla, as condições de trabalho se deterioraram, dando origem ao movimento liderado por Hilda.

A historiadora Regina Kalman, em texto publicado no Recanto das Letras, destaca que os maus tratos aos operários foram determinantes para a criação do sindicato.

“Os maus patrões pagavam salários baixos e atrasavam muito, o que motivou a criação do sindicato, dos movimentos operários e das greves”, escreveu a pesquisadora.

Entre os trabalhadores que passaram pelas tecelagens de Jundiaí estava o compositor e cantor Adoniram Barbosa, conhecido pela música “Trem das Onze”.

Hilda Latance dedicou sua vida à defesa dos trabalhadores têxteis, tornando-se uma das sindicalistas mais antigas em atividade em Jundiaí.

Sua trajetória representa um capítulo fundamental da história trabalhista da cidade, marcado pela luta por direitos, dignidade e justiça social. Havia patrão que temia sentar em uma mesa de negociações com Hilda, sabendo que estava errado.

Com sua partida, Jundiaí perde uma líder que foi voz ativa de milhares de trabalhadores e suas famílias, deixando um exemplo de coragem, determinação e compromisso com a causa operária que permanecerá na memória da cidade.