sexta-feira, 7, agosto, 2026, 22:53
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Ciclone causa estragos no Sul, deixa 1 morto e coloca Sudeste em alerta

FRANCISCO LIMA NETO, GABRIEL ARAÚJO, BÁRBARA SÁ, CLAYTON CASTELANI, ALÉXIA SOUSA E BRUNA FANTTI

SÃO PAULO, SP, BELO HORIZONTE, MG E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A passagem de um ciclone-bomba, com ventos acima de 134 km/h, causou estragos no Sul do país, deixando um homem morto e milhares sem energia elétrica desde a tarde desta quinta-feira (6).

No total, 2.306 pessoas estão desalojadas no estado, sendo a maior parte em Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapiranga, Nova Hartz, Portão e Eldorado do Sul, segundo balanço da Defesa Civil.

Os fortes ventos foram notados também no Sudeste, principalmente na região litorânea. Aulas foram suspensas no litoral paulista e no Rio de Janeiro nesta sexta-feira (7), e a região ficou em alerta, mas não registrou estragos de grande impacto.

O ciclone-bomba se forma no encontro de duas massas de ar com temperaturas diferentes: uma fria e outra muito quente. Assim, há uma queda rápida na pressão atmosférica, causando fortes rajadas de vento e chuvas intensas, explicam especialistas.
– Entenda o que é um ciclone-bomba, como o que pode atingir parte do Brasil

Segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, ao menos cem municípios reportaram estragos causados pelos ventos no estado. Na manhã desta sexta, cerca de 294 mil endereços ficaram sem energia elétrica, segundo painel da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Os ventos chegaram a 134 km/h em General Câmara, e a cerca de 76 km de Porto Alegre.

Em Montenegro, um motociclista morreu ao ser atingido por uma árvore que caiu durante a tempestade. A Defesa Civil não divulgou a identidade dele.

Até a manhã, havia registro de cinco feridos: três em Dom Feliciano, após o destelhamento de um pavilhão; um em Novo Hamburgo; e um em Osório.

No final da tarde de quinta, um tornado atingiu o município de Pedro Osório. Segundo a Defesa Civil, o fenômeno provocou destelhamentos na localidade de Matarazzo.

O fenômeno ocorreu associado a uma supercélula, tempestade caracterizada pela presença de uma corrente de ar rotativa, o que potencializou a força dos ventos.

A capital Porto Alegre foi atingida pelo temporal à noite. Ao menos 32 imóveis foram destelhados, houve dois desabamentos e queda de sete árvores, segundo balanço da prefeitura.

A maior rajada de vento registrada foi de 120,4 km/h, na estação do aeroporto Salgado Filho, conforme a Defesa Civil.

Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, o temporal provocou a falta de energia elétrica na ETA (Estação de Tratamento de Água) São João e em 12 estações de bombeamento, o que poderia ocasionar falta de água em 45 bairros da cidade.

Em Pelotas (RS), os ventos alcançaram os 90 km/h, causando o destelhamento de 200 imóveis, além de queda de energia e falta de água, segundo a Defesa Civil municipal. Parte do muro do presídio regional caiu durante o temporal.

Choveu 30 mm em pouco minutos. Muitas árvores caíram. As zonas com mais registros de danos foram Fragata, Guabiroba, Bom Jesus e Dunas.

A prefeitura afirmou que está sendo feito levantamento de todas as ocorrências, e os prejuízos estão sendo contabilizados, para definir se será publicado decreto de emergência ou calamidade.

FENÔMENO RECORRENTE NO SUL

Apesar dos impactos, ciclones extratropicais não são excepcionais no Sul. O meteorologista Willians Bini, da Metos Brasil, explica que esses centros de baixa pressão ocorrem todos os anos e são mais frequentes nesta época.

“Ciclones são algo muito comum. O que muda e acaba trazendo um impacto muito grande é o seu posicionamento, onde ele se forma e para onde se desloca, e a sua intensidade”, afirma.

A meteorologista e consultora Andrea Ramos explica que o ciclone-bomba é um ciclone extratropical que passa por uma intensificação muito rápida, processo denominado ciclogênese explosiva. A classificação considera a velocidade da queda da pressão atmosférica, e não apenas a força dos ventos.

Quanto maior for a diferença de pressão entre o centro do sistema e as áreas ao redor, maior pode ser a velocidade dos ventos. Ramos diz que rajadas acima de 100 km/h podem ocorrer longe do centro do ciclone e dependem também do contraste de temperatura, da corrente de jato, da umidade e da trajetória do sistema.

As mudanças climáticas alteram o ambiente em que esses fenômenos se desenvolvem. Oceanos e atmosfera mais quentes disponibilizam mais calor e umidade. “A liberação de calor latente pode contribuir para o aprofundamento de determinados ciclones”, afirma Ramos.

A sequência de episódios severos nas últimas semanas, entretanto, não significa que ciclones-bomba estejam se tornando mais frequentes no Brasil.

Outro fator a ser levado em consideração é o El Niño. O fenômeno não cria diretamente um ciclone-bomba. Ele altera a circulação atmosférica e pode modificar a corrente de jato, o transporte de umidade e a trajetória dos sistemas, como explicam os especialistas.

“Para o episódio atual, diria que o El Niño pode contribuir para um ambiente de grande escala mais favorável à recorrência de sistemas frontais e chuva no Sul, mas não deve ser apontado como causa isolada do ciclone ou dos tornados”, afirma Ramos.

GABINETE DE CRISE EM SÃO PAULO

Os ventos do ciclone na região Sul eram esperados também região Sudeste. Por isso, a Defesa Civil do Estado de São Paulo instalou um gabinete de crise para monitorar seus efeitos e deixou toda sua equipe de prontidão.

Os ventos chegaram a 109 km/h em Santos, no litoral sul paulista, por volta das 7h desta sexta. Em razão disso, a travessia da balsa entre Ilhabela e São Sebastião foi paralisada em alguns momentos.

A navegação no canal do Porto de Santos foi suspensa às 6h45, devido à ventania. A partir das 8h20, em virtude da melhora das condições meteorológicas, a operação foi retomada.

No início da noite, a Defesa Civil descartou, ao menos temporariamente, riscos generalizados relacionados ao ciclone. Chuvas em pontos isolados no interior e no litoral ainda poderiam provocar danos localizados ao longo da noite e da madrugada.

Ao longo do dia, o órgão registrou estragos provocados por ventos fortes em 11 cidades paulistas. Não houve vítimas no estado.

Na Baixada Santista, Peruíbe suspendeu as aulas em 15 escolas após árvores caírem em vias públicas. Os municípios de Santos, Guarujá, São Vicente e Itanhaém também tiveram árvores derrubadas em vias públicas. Em Cubatão, uma casa foi atingida por galhos, mas nenhum morador se machucou.

No litoral norte, Ubatuba suspendeu aulas em 54 escolas. Em Caraguatatuba, árvores caíram em quintais, praças e canteiros de vias públicas.

No interior paulista, Ourinhos teve um carro estacionado na rua atingido por uma árvore. Um muro de uma construção desabitada também veio abaixo. Em São Miguel Arcanjo, uma via foi fechada, também devido a uma queda de árvore.

PONTO FACULTATIVO NO RIO

No Rio de Janeiro, o governo do estado decretou ponto facultativo a partir das 13h desta sexta, diante da previsão de vendaval, e informou que bombeiros estavam em monitoramento permanente.

Moradores do Rio receberam às 12h35 um alerta nos celulares com a recomendação de que a volta para a casa seja antecipada, diante do risco de ventos muito fortes em diferentes regiões, incluindo a capital.

As aulas na rede pública foram canceladas, e o prefeito do Rio Eduardo Cavaliere (PSD) fechou parques públicos municipais a partir de 12h.

No transporte público, a Mobi-Rio, responsável pelo BRT, o MetrôRio e a TrensRJ anteciparam o horário de pico para as 13h por recomendação das autoridades.

O município do Rio chegou a entrar em Estágio 3. O estágio é o terceiro nível de uma escala de cinco e indica que uma ou mais ocorrências já impactam o município, afetando a rotina da população. Às 18h, porém, o município retornou ao Estágio 2, indicando ausência de ocorrências de impacto na cidade.

 

 

FOTO: DEPOSITPHOTOS