terça-feira, 11, agosto, 2026, 19:22
JUNDIAÍ

Quem é o padre de Jundiaí excomungado após se juntar a fraternidade que desafia o papa

Por Redação e por José Maria Tomazela

A Diocese de Jundiaí confirmou que excomungou o padre Rodrigo de Oliveira Silva após ele aderir formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo tradicionalista que o Vaticano considera em situação de cisma com a Igreja Católica. A entidade nega as acusações da Santa Sé.

Natural de Cajamar, na região metropolitana de São Paulo, Rodrigo estudou no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Desterro e concluiu a formação em Filosofia e Teologia em 2009. Foi ordenado diácono em 2010 e padre, em 2011. Ele era pároco da Paróquia Santo Antônio e em fevereiro deste ano já tinha pedido o afastamento da diocese.

Desde março, Rodrigo promove uma campanha de arrecadação virtual para viabilizar a abertura de uma igreja própria em Campo Limpo Paulista. Até a manhã desta terça-feira, 11, haviam sido arrecadados R$ 73,3 mil.

Procurado, o padre informou que não vai se manifestar no momento.

Até fevereiro deste ano, o padre atuava como pároco na Paróquia de Santo Antônio, no bairro Ivoturucaia, em Jundiaí. Naquele mês, ele pediu seu afastamento para se dedicar à Fraternidade São Pio X, uma congregação religiosa ultraconservadora (entenda abaixo). Desde então, passou a atuar em Campo Limpo.

Lá, ele alugou um imóvel onde passou a fazer celebrações de missas tridentinas (liturgia da Missa do Rito Romano). Nesse rito, a missa é rezada em latim e o padre fica de frente para o altar e de costas para os fiéis.

Por que ele foi excomungado?
O anúncio foi feito pelo bispo diocesano Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, que classificou como ilícitos todos os atos do ministério do sacerdote a partir de agora.

Segundo a diocese, absolvições concedidas por Rodrigo no sacramento da Penitência e casamentos por ele assistidos deixam de ter validade perante a Igreja. “No que tange aos Sacramentos da Penitência e do Matrimônio, tanto a absolvição sacramental por ele concedida quanto os casamentos por ele assistidos carecem de validade e são nulos”, declarou o bispo em nota oficial.

A excomunhão decorre de determinação do Vaticano do mês passado: bispos, padres e leigos que aderirem formalmente ao grupo passam a ser considerados em situação de cisma.

A medida é uma resposta à ordenação de quatro bispos pelo grupo, em 1º de julho, sem autorização do papa Leão XIV – o que Roma chamou de “ato de natureza cismática”. É o primeiro cisma da Igreja em 38 anos, e também envolve a mesma fraternidade fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre.

Para voltar à comunhão com Roma, os fiéis precisam aceitar formalmente o Concílio Vaticano II e se submeter à autoridade do papa.

O que o padre defende?
Em vídeo gravado em abril deste ano, o padre diz que, no ato da compra do terreno para a futura igreja, vai constar que, se houver venda futura do imóvel, 90% do valor serão revertidos para um priorado (mosteiro ou casa religiosa) da Fraternidade São Pio X.

“Nosso apostolado não começa do zero, pois já temos a Santa Missa diária. No entanto, o espaço em que estamos é alugado. Nosso objetivo com esta vaquinha é arrecadar o valor total ou próximo dos R$ 190 mil para adquirir esta chácara de 4.500 m2”, escreve na petição online.

No vídeo, gravado após deixar a paróquia de Jundiaí, em fevereiro, o padre afirma que desde o início procurou apoio da Fraternidade. “Aqueles que criticam de forma negativa esse tipo de decisão se fazem de ignorantes da situação atual da Igreja. A todos aqueles que nos apoiam, que estão de fato com a sua fé católica renovada pela tradição, meu muito obrigado”, diz.

Para ele, as paróquias deixaram de seguir os ensinamentos da Igreja Católica genuína. “Infelizmente, o estado atual de crise tornou as paróquias apenas propagadoras de doutrinas ou realidades que não são mais católicas. Sabemos que a imensa maioria hoje está no liberalismo inconsciente. São católicos liberais, condenados já por São Pio X. Pior ainda, são modernistas, a mãe de todas as heresias”, diz.

Fiel ao pensamento da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o padre defende de forma rigorosa a tradição católica e rejeita as mudanças trazidas pelo Concílio Vaticano II, na década de 1960. Ele vê a infiltração do liberalismo e do modernismo na Igreja, citando a Teologia da Libertação, a Campanha da Fraternidade e o ecumenismo – diálogo da Igreja Católica com outras religiões.

Ele diz que o momento é de se levantar com coragem e pedem aos que não têm essa coragem que não critiquem quem toma a decisão. “E o meu profundo pesar àqueles que jazem numa paróquia de túmulos, de pessoas que são verdadeiros cadáveres, que não estão percebendo os insultos que Nosso Senhor sofre hoje na missa nova, os insultos que o Coração Imaculado de Maria sofre por essa falta de docilidade ao espírito de Nosso Senhor.”

O que é a Fraternidade São Pio X?
Fundada em 1970 por Lefebvre (1905-1991), a FSSPX nasceu como reação às mudanças do Concílio Vaticano II (1962-1965), que tornou a liturgia mais acessível, assumiu compromissos sociais contra a pobreza e valorizou o ecumenismo. Os seguidores de Lefebvre mantiveram o rito tridentino: a “missa antiga”, rezada em latim e com o padre de costas para os fiéis.

Hoje a fraternidade tem dois bispos, 733 sacerdotes, 264 seminaristas, 145 irmãos religiosos, 88 oblatos e 250 religiosas, de 50 nacionalidades.

Em seu site em língua portuguesa, a fraternidade “defende-se de qualquer acusação de cisma e considera, apoiando-se em toda a teologia tradicional e no ensinamento constante da Igreja, que uma consagração episcopal não autorizada pela Santa Sé – quando não é acompanhada nem de intenção cismática, nem da colação da jurisdição não constitui ruptura da comunhão”. E alega necessidade pastoral para as ordenações, por causa de seus fiéis e da idade de seus bispos.