sexta-feira, 21, agosto, 2026, 10:56
POLÍTICA

Rachel Sheherazade anuncia candidatura a deputada federal

Rachel Sheherazade decidiu que a televisão já não lhe basta. Depois de mais de duas décadas entre estúdios, microfones e cortes de edição, a jornalista e analista política anunciou que será candidata a deputada federal por São Paulo pelo PSD. A plataforma é conhecida: combate à misoginia, defesa dos direitos das mulheres e dos direitos trabalhistas, enfrentamento à violência de gênero e proteção de minorias. O método também: falar de forma articulada, direta e contundente, sem filtro. Características que, em outros tempos, já lhe renderam tanto audiência quanto advertências.

Nascida em João Pessoa, na Paraíba, Rachel fez o caminho que tantas carreiras midiáticas brasileiras conhecem bem: saiu do Nordeste, depois de ter passado por redações locais, como TV Correio, TV Cabo Branco, TV Tambaú, afiliadas das redes Record, Globo e SBT, e chegou ao centro do país. Em São Paulo, ganhou projeção nacional ao assumir a bancada do SBT Brasil. Mas, antes disso, tornou-se conhecida em todo Brasil depois que um vídeo com críticas ao Carnaval viralizou nas redes sociais em 2011. Foi aquele comentário despretensioso que apresentou ao país seu estilo de comunicação: opinativo, embasado e nada hesitante.

No SBT, a apresentação das notícias nunca foi apenas leitura. Rachel rapidamente ocupou o espaço intermediário entre a apresentadora e a comentarista, uma zona cinzenta que, na televisão brasileira, costuma ser tolerada até o momento em que deixa de ser. Seus editoriais ganharam repercussão, e com eles veio a consolidação de uma figura pública que parecia operar melhor na tomada de posições do que na neutralidade.

A relação com a emissora, como era previsível, oscilou. Em 2014, após uma sequência de declarações consideradas politicamente controversas, o SBT decidiu cortar os comentários pessoais dos apresentadores no telejornal. Anos depois, no palco do Troféu Imprensa, Silvio Santos fez uma advertência a sua principal apresentadora: Rachel teria sido contratada para ficar bonita e ler o teleprompter com as notícias, não para opinar. Ela gentilmente contestou a afirmação, respondendo que havia sido contratada justamente para isso. O caso se transformou em questão jurídica e o dono do SBT foi condenado a indenizar a ex-funcionária por assédio moral.

Fora do SBT, Sheherazade retomou as opiniões — desta vez nas suas redes sociais. Segurança pública, liberdade de expressão, polarização política, direitos humanos… Poucos temas escaparam de sua intervenção.
Agora, essa disposição para o confronto discursivo será testada em outro ambiente. No PSD, a avaliação é de que Rachel pode preservar justamente aquilo que a tornou conhecida: a impressão de independência. Nos bastidores, a aposta é menos na adesão automática a uma linha partidária e mais na capacidade de mobilizar uma audiência que já a acompanha — e que, em boa medida, já a reconhece como uma voz política, ainda que fora da política formal.

Nas redes sociais, especialmente no Instagram e no TikTok, Rachel já opera como uma espécie de comentarista permanente da vida pública. Seus vídeos sempre atuais e assertivos tratam de temas sociais e políticos com a mesma linguagem que a consagrou na televisão: voz altiva, texto claro, mensagens diretas e discurso embasado. É ali que sua campanha deve se apoiar.

Há também o componente biográfico, sempre útil em campanhas eleitorais. A nordestina que chegou a São Paulo com os dois filhos para crescer na carreira e melhorar de vida agora diz querer devolver ao Estado o acolhimento e as oportunidades que recebeu. A narrativa é conhecida, mas eficaz: a da ascensão individual convertida em compromisso público.

Depois de 26 anos diante das câmeras, Rachel Sheherazade se prepara para uma mudança de cenário. A bancada do telejornal dá lugar à tribuna da Câmara. Se a política brasileira já é, em alguma medida, uma disputa por narrativas, Rachel Sheherazade tem um grande desafio pela frente: transformar o discurso da mídia em ações no parlamento.