Quarentena abre espaço no coração para os cachorros

Por Camila Tuchlinski

Por anos, Renata Dunshee de Abranches teve medo de cachorros. Quando era criança, tinha verdadeiro pânico e atravessava a rua para não passar pela mesma calçada que tivesse um. “Aos 10 anos, fiquei uma vez o dia inteiro dentro de um carro em um churrasco num sítio. Tinha um cachorro solto lá, pequenininho, mas eu ficava morrendo de medo e não conseguia sair do carro. Meu pai pensou que, se eu ficasse dentro do carro, uma hora eu iria sair e perder o medo do cachorro”, lembra.

A psicóloga Carolina Jardim, especialista em comportamento animal, explica que muitas pessoas que têm medo de animais passaram por eventos negativos. “Pode ser algum trauma, muitas vezes vivido na infância. O papel dos cães na nossa sociedade ao longo dos anos mudou muito. Na minha infância, os cães ainda viviam em quintais, alguns deles acorrentados durante o dia, pois a função era cuidar da casa à noite. E eles não eram bem socializados, não tinham suas necessidades básicas atendidas, e, por isso, muitas vezes, acabavam tendo comportamentos inadequados. O que, por consequência, aumentava a probabilidade de acidentes e possíveis traumas para os envolvidos”, analisa.

A fobia de Renata a acompanhou ao longo da infância. O sentimento só foi diminuindo com o tempo. “Fui crescendo, amadurecendo, e esse pânico foi diminuindo. Passei a ter uma convivência ‘amigável’ com o cachorro. Se ele vem me cheirar, eu deixo, mas não fico ali brincando. Não gosto de cachorro pulando Não suporto cachorro na minha cama. Não é da minha própria vontade ter um cachorro de estimação. Isso só acabou acontecendo por uma influência externa, no caso, meu filho”, afirma Renata.

Os pedidos de Guilherme, hoje com 14 anos de idade, começaram há sete anos. O garoto insistia em adotar um cãozinho, mas a mãe dava um jeito de escapar. “Ele sempre pediu muito e eu dizia que não dava, porque ele estudava em período integral na escola, e eu trabalhava e ficava 10 horas fora de casa e não dava conta de um cachorro. E, no fundo, eu não estava com a menor vontade de ter um e falava que ele só poderia ter um quando fosse maior e pudesse arcar com os trabalhos de ter um cachorro. Quando fosse sozinho para passear com o cachorro, limpar as coisas dele, aí sim ele poderia ser dono de um. Eu havia combinado que isso seria quando tivesse uns 10 anos”, conta.

E adivinha só? Guilherme completou 10 anos e a primeira coisa que fez foi lembrar a mãe de sua promessa. Mas algo inesperado aconteceu. “O Guilherme perguntou: ‘Mãe, e aí?’. E eu falei: ‘Que tal um irmãozinho em vez de um cachorro?’ (risos) E aí tive meu segundo filho. Falei pra ele que cachorro agora só quando seu irmão crescer”, afirma Renata.

A grande chance de Guilherme aconteceu neste ano, em março, no início da pandemia do novo coronavírus. “Eu já estava praticamente cedendo e, no que veio a pandemia, achei que seria mais importante ainda ele ter um cachorro. Ele está em aula em casa, o dia inteiro sozinho, porque estou no banco trabalhando normalmente. Pensei que seria legal adotar um filhote e que também estaria precisando de alguém. Aí, na primeira semana da pandemia, adotamos”, revela.

Ainda parece cedo para dizer se Renata venceu completamente o receio dos cachorros. Porém, ela já dá sinais de que está mudando o sentimento em relação aos pets. “Ele tem sete meses, então, ainda é uma avaliação baseada por um filhote (risos). Ele dá muito trabalho em casa, tem uma energia altíssima, precisa passear muito, brincar muito, de muita atenção. Mas aí nisso tudo, na pandemia, acabei descobrindo que gosto muito de sair para passear com ele. Em casa, ele me deixa mais estressada e acalma meu filho, mas na rua ele me deixa mais calma e, para passear, meu filho não gosta muito. Eu adoro ir ao aterro do Flamengo com ele, fazer passeios ao ar livre. Sempre gostei de caminhar na rua e tenho adorado ele poder ir comigo e fazer essas atividades. Cada um tem um ponto positivo com o cachorro”, confessa.

A psicóloga Carolina Jardim, especialista em comportamento animal e treinadora de cães, ressalta que alguns indivíduos têm medo de cães porque não conviveram com eles. “Muita gente não conviveu com cães e não se sente confortável perto deles. Outros tiveram experiências negativas com cães que os atacaram na infância e isso gerou algum tipo de trauma que, por não ter sido tratado, acabou sendo transformando em uma fobia”, diz. “Não tenho mais medo de cachorro como antes. Isso realmente com mudou com o convívio”, conclui Renata Dunshee de Abranches.

Carolina aconselha as pessoas a se abrirem para os benefícios incríveis e únicos que a relação com os cachorros pode trazer. “Em princípio, eles tendem a confiar nos humanos. A espera por receber algo bom da gente é algo instintivo neles, pois está totalmente ligado à domesticação. É por isso que eles têm essa capacidade incrível de ler os nossos micro sinais a ponto de saberem quando vamos sair de casa, quando vamos comer, etc. Essa aprendizagem é evolutiva e os cães evoluíram junto com os humanos. Eles foram a primeira espécie a ser domesticada e essa convivência de aproximadamente 16 mil anos traz muitos benefícios para ambas as espécies”, garante a especialista em comportamento animal.

A relação com um cãozinho é de troca, conexão e única. Quem tem essa experiência garante que não consegue mais viver sem a presença dos pets que, muitas vezes, ocupam um lugar de afeto que é insubstituível.

Muitas pessoas adotaram um cachorro em meio à pandemia do coronavírus. Foi assim com a professora Patrícia Tavares Gonçalves, que sempre quis ter um animal de estimação, mas, como não via espaço e tempo na vida para se dedicar a um, achava que não seria capaz. “Dou aula em duas redes municipais e ainda tenho um estúdio de beleza, a minha vida é uma loucura! No início da pandemia, terminei um relacionamento e aí, ao mesmo tempo, vi o amigos publicando filhotes que haviam encontrado e precisavam de um lar. Me cortou o coração e resolvi dar um lar temporário. Seria temporário, afinal, não havia tempo pra um animal nesse meio. Então resolvi pegar um filhote pra dar amor e cuidado enquanto teria esse tempo em casa”, lembra.

A empresária pegou uma filhotinha com todo apoio do Amigos da Mia. “Quando surgiu um novo adotante pra ela, não queria mais ter de dá-la. Eu trabalho o dia todo, tem dias que nem almoço, mas adotar foi a melhor coisa que fiz na vida. Sempre julguei quem tratava bicho como filho e hoje me vejo nessa situação”, diz. O desafio agora é fazer a adaptação da cachorrinha com o fim da pandemia. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

Frida sumiu no Bonfiglioli

A gatinha Frida sumiu no Jardim Bonfiglioli, região da rua Messina, em Jundiaí.

Informações no telefone é 11 99273-5366